Como seguir o legado do Professor Ernest Hamburger

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Prof. André Frazão Helene, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (foto disponível no Wikimedia Commons).

Por André Frazão Helene

(Intervenção na mesa-redonda “Desafios da Difusão Científica: homenagem a Ernesto Hamburger”, realizada em 9 de junho de 2016 pelo CEPID NeuroMat.)

Gostaria de iniciar minha fala dizendo que me sinto enormemente honrado em estar aqui. Certamente se estou nessa mesa é por ser um neurocientista ligado ao projeto NeuroMat. Nesse sentido, preciso reforçar a importância que teve ao projeto a participação do Professor Ernesto, que pôde emprestar não apenas seu enorme prestígio, mas principalmente sua enorme experiência na área de difusão científica. É nesse sentido que devo, antes de tudo, mencioná-la.

O professor Ernesto tem em sua história uma das mais importantes contribuições que um pesquisador poderia dar à difusão, seu legado é, acima de tudo a história de alguém verdadeiramente dedicado, não apenas à sua área de estudo particular, a física nuclear, mas ao ensino e extensão da física, e não apenas ao da física, mas ao ensino e à difusão de ciência como um todo. Mais ainda, o professor Ernesto é alguém sensível ao fato de que as habilidades necessárias para atuar em todas estas  frentes depende de uma atuação multifacetada e complexa.

Poderia retratar aqui as contribuições dadas pelo professor Ernesto revendo em sua história suas inúmeras realizações factuais, como é óbvio na Estação Ciência ou mesmo no museu Catavento, poderia também ressaltar sua contribuição revendo seus inúmeros prêmios, como os prêmios José Reis, a medalha da Ordem Nacional do Mérito Científico ou o prêmio Kalinga para a popularização da Ciência – UNESCO, mas creio que há algo mais importante em sua contribuição. Certamente menos enaltecido, mas cujo impacto é mais forte. 

Eu fui aluno de uma escola estadual no Bairro da Lapa durante todo meu ensino básico (fundamental 1 e 2). Nessa época tive a oportunidade de viver minha primeira grande experiência científica formal. A estação Ciência organizava atividades voltadas aos alunos de escolas da região nos finais de semana. As atividades eram de participação expontânea, mas éramos fortemente incentivados a participar. Me inscrevi em um curso de meteorologia, que ocorreria em alguns encontros nos sábados pela manhã no auditório da estação. Tive ali, com não mais de que 13 ou 14 anos de idade um curso real de meteorologia, onde estudávamos as dinâmicas de formação de nuvens, os conceitos de pressão e umidade relativa etc. Me lembro até hoje da fascinação e da satisfação de passar por tal experiência. Faço este relato pois sei quanto difícil é avaliar o imapacto quantitativo destas ações por isso trago aqui um relato que talvez possa ilustrar ao menos o quanto profundo são seus impactos qualitativos. Mas, mais que contar a história queria trazer o relato de que eu mesmo sou parte do legado direto das ações do professor Ernesto, tanto pelo gosto pela ciência, como por sua divulgação. Do legado de formação produzido por suas ações.

No entanto, a questão que nos cabe aqui vai além de ressaltar e homenagear o professor Ernesto. Cabe aqui tentar debater como, à luz do legado produzido pelo professor Ernesto, podemos discutir os desafios da difusão científica..

A pergunta neste cenário pode ser então: com vistas ao legado do professor Ernesto, como podemos propor uma difusão científica que venha a contribuir para difundir a ciência como princípio?

Não podemos crer que as respostas estejam em repetir as ações, mas talvez em repetir seus princípios.

Nesse sentido proponho que tentemos discutir como a difusão pode aproximar as pessoas da ciência e de seu fazer diário, pensando em como revitalizar aspectos essenciais do fazer científico, em especial dois deles: o prazer humano natural pela produção de conhecimento sobre um tema e o empoderamento que conhecer algo nos dá. Mais do que no ensinar ciência, me parece que é na direção de alcançar estes dois pontos que se justifica a existência de iniciativas de difusão. O amor natural por conhecer e o empoderamento dado pelo conhecimento são assunto possível e desejável nas ações de difusão científica, são conteúdo possível por meio do encantamento lúdico e pela exemplificação real de que ciência é parte fundamental da construção das sociedades modernas. Se os ambientes formais de ensino falham em militar no encantamento dos jovens e adultos, os espaços não formais se abrem com máximo potencial para tal fim. Talvez possamos utilizar este espaço nobre para pensar nessas questões.

Por fim, gostaria de contar mais uma história. Durante uma exposição que organizei sobre a história das neurociências descobri um fato interessantíssimo. O projeto NeuroMat, em sua ação de pesquisa clínica atua em duas frentes, uma de lesão do plexo Braquial e outra em doença de Parkinson. Ambas envolvendo o estudo do controle motor, área em que um dos mais importantes pesquisadores foi Hugo Liepmann, avô do professor Ernesto. Nesse sentido, creio que o encontro das pessoas e temas que estão no projeto NeuroMat são mais que apenas uma confluência feliz, são um passo natural do longo caminho para o desenvolvimetno necessário de uma área.


Este texto foi publicado originalmente pelo boletim Pensar a educação em pauta.

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