Ernesto Hamburger 2.0: a experiência de difusão científica colaborativa do NeuroMat

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Prof. João Alexandre Peschanski, da Faculdade Cásper Líbero (foto disponível no Wikimedia Commons.)

Por João Alexandre Peschanski

(Intervenção na mesa-redonda “Desafios da Difusão Científica: homenagem a Ernesto Hamburger”, realizada em 9 de junho de 2016 pelo CEPID NeuroMat.)

O evento de hoje intitula-se “Desafios da difusão científica” e, por mais que estejamos em um ambiente festivo, de homenagem, peço a licença para dizer: o desafio da difusão científica é dramático. A dimensão desse desafio é avassaladora: (1) o Brasil sofre no presente com o assim chamado analfabetismo científico; (2) a construção desse analfabetismo científico é histórica, ou seja, carregamos práticas e instituições que potencialmente dificultam a difusão da ciência; e (3) vivemos um ambiente político instável no apoio à ciência, em evidente retrocesso nos tristes dias atuais. O desafio que temos diante de nós é, nesse ambiente adverso e inóspito, participar no desenvolvimento dos processos sociais necessários para constituir a cultura científica.

Há vários possibilidades semânticas para definir o objeto da cultura científica. Carlos Vogt, em seu trabalho sobre a espiral da cultura científica, fala em “cultura da ciência”, “cultura pela ciência” e “cultura para a ciência”. Rapidamente: a cultura da ciência diz respeito ao conjunto de objetos a serem conhecidos que a ciência gera e às práticas próprias ao mundo científico. Há nesse nível, segundo a definição de Vogt, pouco ativismo da comunidade científica em difundir o que produz para uma comunidade mais ampla. A cultura pela ciência diz respeito ao conjunto de práticas culturais que se adquire por meio da ciência e que podem levar a uma predisposição positiva em relação à ciência. Normalmente, naturalizamos a ideia de que as pessoas vão ter uma atitude positiva com a ciência, o que simplesmente não se confirma na realidade. A cultura para a ciência é o conjunto de práticas que faz com que as pessoas participem e socializem a ciência. A analogia que Vogt faz aqui é que as pessoas deveriam relacionar-se com o conhecimento científico com o mesmo entusiasmo e dedicação com que se relacionam com o futebol. A partir dessas definições gerais, Vogt apresenta uma estratégia no tempo e no espaço para desenvolver a cultura científica, numa forma de espiral sequencial, indo da difusão entre pares à divulgação científica geral, passando pela formação de cientistas nas universidades e nas escolas.

O desafio da difusão científica do Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão em Neuromatemática (CEPID NeuroMat), criado em 2013 e financiado pela FAPESP, é especificamente aproximar a fronteira da ciência — no caso, a teoria matemática do cérebro — da cultura científica geral. Esse desafio está em certo modo dentro dos parâmetros definidos por Vogt, mas também relativamente fora da imagem de uma espiral da cultura científica. Brincando, costumo chamar nossa estratégia de difusão de “Ernesto Hamburger 2.0”. O Prof. Hamburger foi o primeiro coordenador da equipe de difusão científica e, por variados motivos, teve de afastar-se antes mesmo do surgimento do CEPID. É até engraçado que eu esteja numa mesa-redonda com pessoas que tiveram relações profissionais intensas com ele, pois, trabalhamos pouco juntos. Tivemos sete reuniões e assisti a uma palestra dele na Faculdade Cásper Líbero, em 2014. Mas coube a mim, na equipe de difusão científica, com a orientação e o apoio de pessoas de incrível generosidade e talento, como Antonio Carlos Roque e Fernando da Paixão, desenvolver a prática que o Prof. Hamburger havia apresentado sob forma de projeto na construção do NeuroMat.

Foi na convivência com o Prof. Hamburger, pouca mas rica, que elaboramos de certo modo princípios fundamentais de nossa atividade de difusão, especialmente a preocupação com “o foco na linguagem” e “a realização de um espaço público” da difusão científica. Disse-me em ocasiões diversas o Prof. Hamburger sobre os desafios que temos à nossa frente: “[é] preciso desenvolver a linguagem pela qual se expressa o que há de comum entre a neurobiologia e a matemática”; “[a difusão científica] se realiza em espaços conhecidos, como a escola e o museu”. É sobre uma das dimensões de nossa linguagem e espaço de realização, a web 2.0, que falarei, agora.

A linguagem da difusão científica é uma preocupação sobre nosso sistema de comunicação, especialmente a semântica na difusão científica. Uma das leituras possíveis da sequência na espiral científica é que o conhecimento deve ser germinado dentro da comunidade científica e só em sua versão consolidada ser transferido para um público mais amplo. Há alguns desdobramentos curiosos dessa leitura. Primeiramente, pode significar que, se espera — uma esperança frustrada, antecipo — que o conhecimento científico se consolide, na própria comunidade científica, para daí ser transferida, relativamente inerte e amadurecida, para a população em geral. Essa busca pelo estável é inevitavelmente uma prática de difusão em defasagem. O conhecimento, mas também a prática do conhecimento científico, quando entra na suposta espiral sequencial, estará finalmente desatualizada ao chegar ao público. Torna-se então uma espiral de um ciclo só, já que não vislumbro como a cultura científica em defasagem pode retroalimentar a comunidade científica que disparou inicialmente o fenômeno científico novo.

Há talvez nessa visão etapista da espiral da cultura científica, entendida como aqui a exponho, uma vocação ao cuidado com o conhecimento: sem o devido processo científico, pode-se prometer mais do que se pode cumprir e, por isso, o amadurecimento do conhecimento é necessário para garantir a estabilidade social. Talvez a irresponsável difusão da assim chamada “pílula do câncer” seja um exemplo de quão nociva possa ser a “transferência” quase imediata de um suposto fenômeno científico sem comprovação para um público mais amplo. Essa difusão é irresponsável, pois está associada a uma quase total base científica para usar a fosfoetanolamina em tratamentos contra o câncer e a um apelo popular enorme, pois é interpretada como uma esperança — vã, pelo que dizem recentes relatórios científicos — para pessoas em altíssima vulnerabilidade. Isso poderia nos fazer crer que, diante de impactos nocivos dessa proporção, seria melhor de fato esperar, mantendo-se fiel ao princípio de divulgar apenas um conhecimento consolidado, que corre o risco de jamais se consolidar. Estamos talvez, seguindo essa espiral, num exercício de defasagem e segredo.

Imaginemos que fôssemos capazes de consolidar um conhecimento e uma prática científica. Qual a imagem que isso geraria? Há uma tendência a concordarmos que a prática científica não se propõe a replicar a realidade, mas entendê-la, talvez até encontrar regularidades, leis que não são perceptíveis a olho nu. Por que então a realidade que mostramos se limita a reproduzir a realidade? Aliás, qual realidade? Uma realidade inventada, asséptica, fluorescente, com tubos de ensaio e supostos pesquisadores higienizados e resolutos. Há elementos importantes que expressamos nessa linguagem. Diz-nos: “A ciência é difícil, é distante; o receptor da cultura científica é passivo; o cientista é extraordinário”. Nada contra, mas tudo errado, se o objetivo é participar no desenvolvimento de bases sólidas para a cultura científica.

O espaço público que uma visão etapista sugere é relativamente engessada. A passagem por cada etapa pode supor um conjunto de procedimentos burocráticos. Trata-se portanto de um processo oneroso e lento, controlado. Mais do que isso, é um espaço em que despontam fragmentos do que é produzido, novamente num ambiente de segredo e de certos protocolos entendidos por poucos. Isso vai na contramão da cultura atual, onde público e privado se misturam, se tornam intercambiáveis a partir de um login e um wi-fi. É como se a ciência se mantivesse até certo ponto offline, num mundo em que tudo é compartilhado velozmente.

A difusão científica 2.0 é impaciente, atualizada, incerta e a custo quase zero. Digo 2.0 porque se baseia nas ferramentas colaborativas da internet. Trata-se de uma difusão experimental. Como me/nos disse o Prof. Hamburger, o desafio da difusão científica é fundamentalmente desenvolver a linguagem para contar aquilo que acontece na fronteira da ciência, não o consolidado, mas o incerto por linhas tortas. É uma difusão sobre questões, as questões que a ciência abre, talvez não as respostas, o fim da linha. A narrativa disso, reforço, é experimental, ao sabor de nossos avanços na comunicação. E a comunicação não é acessória, uma extensão à atividade científica: não há atividade científica que não carregue um potencial comunicativo, e vice-versa. Toda ação de comunicação da ciência carrega uma discussão e um componente de ciência da difusão científica.

Quando o Prof. Hamburger fala em linguagem e espaço público, o que significo é o “mundão”. Disputar o espaço de atenção que já existe para aquilo que produzimos. O mundo da internet, das redes, das conexões, alimentada não em pequenas doses, mas com transparência total, em colaboração, em busca de novas conexões. Youtubers, snapchatters, wikipedistas, meme-makers… Um foco recente no NeuroMat tem sido o trabalho na Wikipédia, um dos cinco sites mais acessados do mundo. Uma enciclopédia é um dos cinco sites mais acessados do mundo! A principal referência para questões de ciência e saúde no mundo é a Wikipédia, superando nos EUA o NIH, em pesquisa do Pew Research Center. Vou falar um pouco sobre a Wikipédia, talvez a expressão mais óbvia da web 2.0 que tem afinidade com a comunidade científica.

A Wikipédia é um dos projetos mantidos pela Wikimedia Foundation, uma organização não governamental com presença em todos os continentes, que tem por objetivo oficial incentivar a divulgação de conteúdos e plataformas wiki. Outros projetos wiki, mantidos por essa fundação, incluem um dicionário colaborativo (Wikcionário) e um repositório de imagens colaborativo (Wikimedia Commons). Um dos sites mais acessados do mundo, a Wikipédia contava algo como 32.466.285 páginas de conteúdo e 47.186.770 usuários registrados, estando disponível em 287 idiomas. A Wikipédia lusófona correspondia à décima quarta comunidade em número de artigos publicados, com 839.865 páginas de conteúdo, 41.132.469 modificações desde seu surgimento, 1.364.023 usuários registrados e 6.733 usuários ativos, no momento da redação deste projeto. Criada em 11 de maio de 2001, está disponível para todos os territórios de língua portuguesa (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste) e lusófonos de outras partes. Brasil e Portugal representam 81,3% e 13,3% dos usuários ativos da Wikipédia em português, respectivamente.

Esse bem público global é feito de modo colaborativo; é o que se tem chamado de “mundão” da net. Não existem credenciais, distinções — tudo é passível de aperfeiçoamento, nunca algo está acabado, nunca alguém terá a voz final sobre algo, todo mundo sabe algo que pode ser de valor. Ademais, é uma interface não proprietária, livre, que tem embutida nela uma prática real de produção de conhecimento com permeabilidade e capilaridade social.

Nossa equipe de difusão, minúscula, brancaleônica, contribuiu para a edição do verbete “Doença de Alzheimer”, na Wikipédia em português. Atualizamos nessa página algumas referências de pesquisa, em diálogo com uma pós-doc de nosso centro que estuda o diagnóstico precoce da doença. Esse único verbete teve mais de 40 mil acessos no último trimestre. Estamos trabalhando o verbete “Lesão do plexo braquial”, uma das ocorrências clínicas que o CEPID pesquisa: 9.000 acessos no último trimestre, num verbete que é ainda ruim. Mas esses são verbetes de saúde, com interesse mais amplo. OK: “Cadeias estocásticas com memória de alcance variável”, que nós produzimos — 190 acessos no último trimestre (nós nem sabemos o que isso quer dizer), Modelo de Hodgkin-Huxley, 100 acessos desde o início de maio, quando o criamos. Trata-se de um conhecimento vivo, a quase custo zero, que tem impacto, que está aberto à experimentação (até produzimos um vídeo para um verbete, “Classificação de disparos neuronais”). A qualidade de um espaço desses é tão boa quanto o empenho que quisermos colocar nisso. Mas tem de chegar nesse espaço público desarmado da concepção de difusão consolidada e asséptica.

Vejo meus alunos mexendo em seus celulares o tempo todo. Está na moda agora um tal de Snapchat, uma rede social em que postagens duram no máximo 24 horas. Pois bem, se este é o espaço público façamos uma difusão científica no mesmo estilo, imediata, irreverente. A linguagem é fluida, dinâmica, impaciente, como o espaço público. Estamos extrapolando, experimentando, transmidiando. Imagino que não fosse totalmente isso que o Prof. Hamburger tinha em mente quando ele me disse para focar na linguagem e realizar o espaço público, mas gosto de pensar que estamos na mesma linha, numa linhagem 2.0 do Ernesto Hamburger.


Este texto foi publicado originalmente pelo boletim Pensar a educação em pauta.

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