Revista Pesquisa FAPESP — Momento de transição

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Créditos: Wikimedia Commons/CC BY-SA 4.0

Por Carlos Fiovaravanti*

Em fevereiro de 2012, o jornal espanhol Público parou de publicar a edição impressa, mantendo apenas a on-line. Uma das 126 pessoas dispensadas foi a editora de Ciência, Patrícia Fernández de Lis, que tratou de dar forma a uma alternativa em que já vinha pensando. Vendo que as notícias de ciência atraíam muitos leitores, ela formou uma equipe, conseguiu patrocinadores e criou o site Materia, lançado em julho de 2012, com notícias em primeira mão sobre ciência e tecnologia. Em um ano havia 1,5 milhão de usuários únicos e acordos de republicação de seu conteúdo em cerca de 200 jornais de países de língua espanhola. Em setembro de 2014 o jornal El País, o de maior circulação na Espanha, começou a republicar com exclusividade o noticiário do Materia e Patrícia assumiu o cargo de redatora-chefe de Ciência e Tecnologia do jornal, onde trabalhara antes de ir para o Público.

A trajetória do Materia exemplifica o impacto da internet sobre o noticiário não só de ciência, mas também de outras áreas. Agora, pelos já não tão novos meios de comunicação on-linesites, blogs e redes sociais –, as notícias são divulgadas de modo quase instantâneo, escritas tanto por jornalistas quanto por cientistas e outros interessados por ciência. Hans Peters, professor de jornalismo científico da Universidade Livre de Berlim, em um artigo na revista Mètode Science Studies Journal, observou que o mundo on-line deixou para trás o modelo clássico de comunicação de massa, pelo qual uma informação é transmitida por um emissor – no caso, o pesquisador –, por meio dos jornalistas, para o público, que deixou de ser completamente passivo. A internet permite que o leitor dissemine, comente ou corrija notícias imediatamente após lê-las.

Espaços antes ocupados por jornalistas se perderam dentro de uma crise global do jornalismo tradicional – dezenas de publicações no Brasil, na América Latina, nos Estados Unidos e nos países da Europa eliminaram suas versões impressas e, com elas, suas seções de ciência, em consequência da migração dos leitores para publicações on-line. Outros espaços, no entanto, emergiram. Revistas científicas como Science, Naturee Lancet hoje têm seus próprios blogs e dão mais espaço para reportagens em formato jornalístico, com várias fontes de informação e uma visão geral de um tema. Neste ano, a semanal Nature começou a distribuir um boletim diário com indicações de reportagens publicadas em outras revistas ou jornais.

Por sua vez, as instituições de pesqui-sa estão valorizando a comunicação direta com o público, por meio de seus próprios sites e de redes sociais, dispensando a intermediação do jornalista de jornais, revistas e de sites noticiosos não institucionais. Nos Estados Unidos, de modo mais intenso que no Brasil, universidades, agências de fomento como a National Science Foundation e centros de pesquisa como a Nasa, a agência espacial, distribuem notícias, vídeos, imagens e material didático para o público acadêmico e o não acadêmico. Em abril e maio deste ano, cientistas ingleses debateram na Royal Society, a academia britânica de ciências, suas estratégias de divulgação de novidades científicas por meio de revistas que publicam artigos (e não reportagens) e apresentações dirigidas tanto ao público em geral quanto para cientistas.

A expansão da mídia on-line sugere que agora qualquer pessoa pode escrever sobre ciência – no Brasil, o total de blogs de ciência varia de 105, de acordo com um levantamento da Universidade Federal de Minas Gerais, a 210, número obtido por meio de dados levantados no Google, em portais de blogs e cadastros de jornalistas – e promove uma ampliação dos papéis dos jornalistas. Ao dar forma ao Materia, Patrícia Lis teve de fazer o que não fazia antes: contar com seu prestígio profissional para conseguir patrocinadores, negociar acordos de republicação do conteúdo on-line e gerenciar orçamentos de modo que o site se mantivesse e publicasse, como hoje, cinco reportagens diárias. Ao rever sua experiência, ela comentou à Pesquisa FAPESP que “formar uma equipe certa, com pessoas em quem se possa confiar, e produzir informação de alta qualidade” são fundamentais para obter credibilidade e visibilidade.

Promover ou fiscalizar?

Em 2013, a 8ª Conferência Mundial de Jornalistas de Ciência, organizada pela Federação Internacional de Jornalistas de Ciência (WFSJ, na sigla em inglês) na Finlândia, acentuou a necessidade de os jornalistas serem flexíveis, dominar as ferramentas de produção de conteúdo on-line e trabalhar mais intensamente com outros comunicadores de ciência para criar novos modelos de jornalismo científico. Na conferência deste ano, realizada em junho na Coreia do Sul, um dos debates tratou de qual deveria ser o papel dos jornalistas de ciência: promover a pesquisa científica ou fiscalizar o trabalho dos cientistas? Como em um tribunal, cada grupo defendia um ponto de vista e os participantes da plateia mudavam de lado à medida que se convenciam da argumentação de um ou de outro. Não se chegou a um consenso, mas a conclusão com maior número de adesões foi que “não se deve aceitar sem questionamento o que é apresentado pelos cientistas”, disse Bernardo Esteves, repórter de Ciência da revista Piauí que participou do debate.

“Os pesquisadores em geral veem os jornalistas como seus porta-vozes, mas deveríamos dar mais espaço para uma discordância saudável e para uma apreciação mais crítica dos resultados de pesquisa”, observa Esteves. É a mesma posição da jornalista Susan Watts, editora de Ciência de um programa de televisão de um dos canais da BBC, do Reino Unido, demitida em novembro de 2013, quando seu cargo foi extinto. “Precisamos do jornalismo científico para pesar os valores e os vícios da ciência”, ela escreveu em abril de 2014 na Nature. Segundo ela, o noticiário deveria oferecer uma perspectiva crítica e uma visão bem-informada sobre o que a sociedade quer da ciência, sem se deixar levar apenas pelo deslumbramento das descobertas.

Peters, da Universidade de Berlim, reconhece que, mesmo que os cientistas e os próprios leitores estejam produzindo ou reproduzindo notícias, é improvável que o jornalismo morrerá, já que sua tarefa precípua de informar com distanciamento dificilmente poderá ser substituída pelas outras formas de comunicação pública. Segundo ele, a autoapresentação da ciência, por meio de blogs de cientistas e de instituições, não poderá substituir com a mesma credibilidade o jornalismo como observador externo da ciência.

*Esta matéria foi originalmente publicada por Carlos Fioravanti em outubro de 2015 no site da Revista Pesquisa FAPESP.

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