Revista Pesquisa FAPESP – O conhecimento pelas imagens

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(crédito:NahidSheikh31/ Pixabay)

 

O uso da fotografia e dos meios audiovisuais na antropologia cultural vem dos tempos de formação da disciplina. A professora Sylvia Caiuby Novaes, do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), localiza as origens no trabalho dos antropólogos evolucionistas. Para eles, as sociedades se desenvolveriam de acordo com estágios e padrões semelhantes em qualquer época ou parte do mundo, do “primitivo” ao “civilizado”.

Assim, o apoio visual seria apropriado para testemunhar os sinais evolutivos encontrados nos povos estudados e seus modos de vida. Desde então, a antropologia evolucionista foi suplantada por outras teorias que a sucederam, e a imagem só voltou à cena nos anos 1940 com os trabalhos dos norte-americanos Margaret Mead (1901-1978) e Gregory Bateson (1904-1980) em Bali, para se firmar efetivamente nos anos 1960, com a obra do francês Jean Rouch (1917-2004) na África. Muitas discussões se mantêm, como a que contrapõe as possibilidades de registro descritivo e a de uso da imagem de modo expressivo. Essas e outras questões foram discutidas pelo projeto temático “A experiência do filme na antropologia”, coordenado por Sylvia entre 2010 e 2015. Foi o terceiro e último de uma série interligada, totalizando 18 anos de pesquisa.

Quando surgiu, observa a pesquisadora, “a fotografia foi tomada como um recurso para suplantar a pintura, na medida em que captaria uma realidade objetiva, e até hoje é frequentemente abordada como se não ‘mentisse’”. Para a pesquisadora, “o que a antropologia visual busca é saber como utilizar as imagens, seja como estratégia ou resultado de pesquisa”. A busca de novas linguagens, segundo Sylvia, parte do princípio de que “nossa racionalidade científica, muitas vezes impregnada de positivismo, é muito pouco adequada para lidar com universos distintos do nosso”.

O projeto seguiu duas linhas de pesquisa. A primeira, “Fotografia, filme etnográfico e reflexão antropológica – Teoria e prática”, procurou perceber as aproximações e distâncias entre a teoria antropológica e a realização de fotografias e filmes. Segundo Sylvia, “o grande desafio nessa linha de pesquisa é a possibilidade de incorporar às novas linguagens audiovisuais as grandes questões da antropologia contemporânea”.

Um exemplo de filme produzido no âmbito do projeto temático e nessa linha de pesquisa é Pimenta nos olhos, que se originou do diálogo com os moradores de Pimentas, bairro na periferia de Guarulhos (SP), mediado pela realização de oficinas e exposições de fotografia com a intenção de explorar questões de espaço, imaginário e memória da comunidade. Outro estudo que aproxima as possibilidades da fotografia com a reflexão antropológica está em um dos artigos do livro Entre arte e ciência – A fotografia na antropologia, assinado pelo pesquisador Joon Ho Kim, doutor em antropologia pela FFLCH-USP. O livro é um dos prolongamentos do temático, com textos e fotos realizados por alguns dos pesquisadores. Joon recorreu à fotografia para um trabalho compartilhado com atletas em cadeiras de rodas que jogam rúgbi. A intenção com a pesquisa, que ganhou o Grande Prêmio Capes de Tese na área de Humanidades, foi buscar o registro dos detalhes precisos que revelam a violência, a agilidade e os choques de corpos e máquinas das partidas. Joon quis, assim, “capturar os aspectos capazes de desconstruir o estigma da imobilidade por meio da construção de imagens opostas àquelas que sugerem vitimização”.

A segunda linha de pesquisa, “A expressão do conhecimento etnográfico: fronteiras e diálogos entre a antropologia e as artes”, estudou a realização audiovisual na produção de conhecimento antropológico. Segundo Sylvia, o aspecto híbrido das imagens (entre o real e o construído), em especial a fotografia, permite a conexão entre arte, conhecimento e informação. “Das ciências humanas, a mais próxima das artes é a antropologia, em parte porque lidamos com aspectos inconscientes da vida social.”

Assim, alguns dos filmes superaram a distância tradicional entre a pesquisa científica e o trabalho artístico. Um estudo sobre a juventude em Cidade Tiradentes, na periferia de São Paulo, adotou o formato ficcional ao ser adaptado para o meio audiovisual. O filme, Fabrik funk, a realidade de um sonho, assinado por Rose Hikiji, por Sylvia e pela antropóloga Alexandrine Boudreault-Fournier, da Universidade de Victoria, no Canadá, conta a história de uma funkeira e foi feito pelo método de antropologia compartilhada, em que a comunidade estudada participou da elaboração da obra no roteiro e na produção. “Estão lá todos os dados da pesquisa mas, se tivéssemos feito um documentário nos moldes clássicos, a abordagem provavelmente seria menos rica”, afirma Sylvia.

Mais de 50 filmes foram produzidos no âmbito dos três projetos temáticos. Estiveram envolvidos na fase mais recente 27 pesquisadores. Segundo a pesquisadora, o projeto consolidou na FFLCH-USP a área de antropologia das formas expressivas, que estuda a relação entre a antropologia e as diversas áreas de manifestação artística. Foi por meio desses projetos temáticos que se efetivou a infraestrutura do Laboratório de Som e Imagem da Antropologia (Lisa), que mantém um acervo de 1.500 filmes e 8 mil imagens fotográficas e mais de 180 horas de material sonoro gravado, além de documentos de referência, parte dele com acesso pela internet. O Lisa reúne três setores de pesquisa: o Grupo de Antropologia Visual (Gravi), o Núcleo de Antropologia, Performance e Drama (Napedra) e o grupo Pesquisas em Antropologia Musical (PAM).

*Esta matéria foi originalmente publicada por Márcio Ferrari em maio de 2016 no site da Revista Pesquisa FAPESP.

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