Revista Pesquisa FAPESP – Arthur Miller: As representações da simultaneidade

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(crédito: pixabay/freephotocc)

 

Por Mariluce Moura*

À primeira vista parece difícil estabelecer paralelos entre Einstein e Picasso – não, entretanto, para Arthur Miller, autor entre outros livros de Einstein, Picasso: space, time and the beauty that causes havoc (Basic Books, 2001). Porque se para o senso comum nada faria convergir essas duas personagens, afora talvez o fato de terem ambos sido grandes faróis a iluminar a construção do conhecimento e da cultura no século XX, e mais a coincidência de terem vivido cada um o seu período de mais intensa criatividade entre 1902 e 1909, para Miller isso é apenas um ponto de partida que lhe permite relacionar estreitamente o percurso criativo daqueles que define como o cientista e o artista mais importantes do século passado.

“Sempre achei intrigante esse fato de ambos terem produzido seus trabalhos mais importantes na mesma época: em 1905 Einstein descobriu a relatividade especial e em 1907 Picasso pintou Les demoiselles d’Avignon. Trata-se de uma coincidência ou o quê? Decidi que a melhor maneira de tratar isso seria escrevendo uma biografia paralela de ambos”, disse em sua palestra no Ibirapuera, na programação paralela da exposição sobre Einstein, no domingo, 29 de novembro.

O físico norte-americano que vive há muitos anos na Inglaterra e é professor emérito de história e filosofia da ciência no University College London encontra novos paralelos nas carreiras das duas brilhantes personagens examinando, entre outras vias, como esses homens tocados pelo tsunami intelectual que nos primeiros anos 1900 sacudia a Europa, à maneira de uma nova Renascença, valeram-se simultaneamente da geometria, da tecnologia, da ciência e da estética para realizar seu poderoso trabalho criativo e com ele produzir inflexões definitivas nos rumos da ciência e da arte contemporâneas.

Segundo Miller, no clima de excitação intelectual daquele período, “questionavam-se os posicionamentos acadêmicos, as convenções burguesas, formas de arte – pintura, música, arquitetura, literatura – e conhecimentos científicos, especialmente em relação ao modo como eram vistos o espaço e o tempo”. E Einstein e Picasso, na faixa entre 20 e 30 anos, “razoavelmente desconhecidos, pobres e prontos para se meter em encrencas”, sofreram grandes influências dessas marcas dominantes do período.

“Tanto Einstein quanto Picasso trabalharam com os mesmos problemas, o da natureza do espaço e do tempo e o da representação da simultaneidade – temporal, para o primeiro, espacial, para o segundo –, que resultaram na descoberta de uma nova estética minimalista para o cientista e na geometrização do desenho e da pintura para o artista.” E aos olhos de Miller isso comprova que todos os grandes trabalhos artísticos e científicos sempre convocam o conhecimento de disciplinas díspares e, mais ainda, permitem esfumar nos momentos mais intensamente criativos as fronteiras entre ciência e arte. “Pude notar isso estudando o trabalho de algumas pessoas, os de Einstein e Picasso em especial”, observou.

Os vários episódios da vida e da produção intelectual de cada uma de suas personagens, apresentados de forma intercalada na palestra, iam ajudando Miller a evidenciar para a plateia a sua tese de que os resultados brilhantes obtidos por Einstein e Picasso, cada um em seu campo, devem muito à ênfase que ambos davam à concepção daquilo que queriam fazer ou desvendar, em lugar de privilegiar a observação.

Miller lembrou que nos anos vividos em Berna, de 1902 a 1905, Einstein tinha com amigos um pequeno grupo de estudos, a chamada Academia Olímpia, que era fonte permanente de estímulo intelectual. Como tantos físicos ligados a universidades, ele, em seu modesto trabalho no escritório de patentes da Suíça, também se preocupava com questões referentes à natureza da luz. “O que, então, separou Einstein dos outros físicos?”, interrogou. “Nada havia que indicasse o que ocorreria em 1905.” Em paralelo, Picasso, ao retornar a Paris em 1904, com o talento já reconhecido por vanguardistas como André Salmon, Max Jacob e Guillaume Apollinaire, que diziam formar “A banda Picasso”, experimentou até 1909, baseado em seu pequeno ateliê em Montmartre, instalado no Bateau-Lavoir, um prédio caindo aos pedaços, “o período mais criativo de sua vida” – e bastante movimentado com amigos e amigas. Pergunta de Arthur Miller: “O que diferenciava Picasso dos outros artistas, em particular de André Derain, o melhor aluno de Matisse?”. E um comentário para completar: “Todos esperavam que seria Derain quem romperia os padrões e traria um conceito radicalmente novo à arte”.

Com a questão sobre Picasso temporariamente posta a descansar, Miller propôs uma resposta à interrogação sobre a singularidade de Einstein ante outros físicos. “De março a junho de 1905, Einstein trouxe um novo conceito para a ciência, de certo modo influenciado por questões estéticas. Em oito semanas, escreveu seus três artigos que modificariam o rumo da ciência e das nações, um dos quais foi o artigo sobre a relatividade, no qual utilizou a mesma estética minimalista que experimentara no primeiro artigo da série”, resumiu. Neste, Einstein propôs que seria necessário em relação a certos fenômenos, em vez de adotar a distinção formal que a ciência estabelecia entre ondas e partículas, considerar apenas um elemento, neste caso, o quantum de luz.

Movimento relativo

Essa forma ou essa estética e, especialmente, suas considerações sobre dínamos elétricos iriam representar uma contribuição fundamental à teoria da relatividade. Nas palavras de Miller: “Todos sabiam que os dínamos funcionavam, eles estavam no coração da Revolução Industrial, mas ninguém realmente sabia por que funcionavam – essa não parecia uma questão importante, mas para Einstein era”. E ele valeu-se de sua intuição para expressar um problema complexo por meio de uma forma de pensar extremamente visual: em vez de considerar o problema de forma complicada – o movimento de rotação de um ímã em relação a um condutor –, “fez uma demonstração bastante simples do que chamamos de indução eletromagnética, a essência dos dínamos elétricos, ou seja, um processo que provoca a geração de energia elétrica em um condutor que está em movimento com relação a um ímã”.

Ora, da forma como a teoria eletromagnética era interpretada em 1905, entendia-se que observadores próximos do ímã ou do condutor dariam explicações radicalmente diferentes para o fenômeno de geração de corrente. “Para Einstein isso era estranho, dado que se estava ante um único efeito – a corrente medida – que poderia ser relacionado a uma única causa: o movimento relativo. As duas explicações seriam redundantes.” Mais adiante ele descobriria ser impossível a existência de dois distintos pontos de vista, ideia que não seria estética. “Como podemos constatar logo no início do artigo sobre a relatividade, ele entendia que isso levava a assimetrias que não eram inerentes ao fenômeno em si. Em sua opinião, havia somente um ponto de vista e os observadores eram equivalentes uns aos outros. Ao revelar essa falta de simetria, Einstein descobriu uma lei universal da natureza e o princípio da relatividade.” Miller, depois de lembrar que se pensava equivocadamente que esse princípio não funcionaria para teorias eletromagnéticas, ainda que funcionasse muito bem para fenômenos mecânicos, observou que não devemos nos perguntar por que na verdade funciona para todos os sistemas: “Einstein chegou a essa estética minimalista através da ênfase na concepção e não na observação”, ressaltou.

De volta ao artista, Miller observou que Picasso, que acreditava não serem tão bons nem tão vanguardistas os seus trabalhos, “também estava caminhando para um novo estilo de pintura que enfatizava a concepção e não a observação. Também estava interessado em novas formas estéticas, especialmente as da pintura de André Derain, com sua nova concepção de arte, e as da obra Le bonheur de vivre, de Henri Matisse”. E vários elementos vão entrar nas reflexões de Picasso sobre o que fazer: por exemplo, esculturas ibéricas primitivas vistas no Museu do Louvre, nas quais o intrigou o fato de o artista representar o que sabia e não o que percebia. Movido por isso, o artista se afastou de Paris para Besòs, nos arredores de Barcelona, e “teve uma grande inspiração de uma nova forma de arte, que nascia da fusão da arte conceitual francesa com a arte ibérica primitiva”. Um tanto inspirado em Cèzanne, isolado, trabalhando em ritmo frenético, indiferente aos comentários de amigos, ele iniciou provavelmente em março de 1907 a série sobre bordéis e concluiu no fim deste ano a pintura mais famosa da série, Les demoiselles d’Avignon. Umademoiselle com rosto egípcio, duas com traços ibéricos, uma quarta muito mais geométrica que as demais, representada simultaneamente de frente e de perfil, de muitas formas essa “é a fusão presente na arte de Picasso”. Arthur Miller disse acreditar que “ao entendermos a representação dos rostos nesse quadro veremos como Picasso descobriu uma nova estética, que é a da redução das representações a formas geométricas, o que se tornou a principal característica do cubismo”.

Miller apresentou Henri Poincaré como um denominador comum entre Einstein e Picasso e especulou a respeito da influência do cientista francês sobre Einstein no trabalho que levou à definição do tempo e da simultaneidade como grandezas relativas. “Todos os cientistas estavam confusos a respeito do modo como a luz se propaga no espaço e de como percebemos seus efeitos. Mas Einstein, deixando a percepção de lado e partindo para a concepção, afirmou que a luz se propaga no espaço em uma velocidade constante, ponto de vista que trouxe consequências enormes.”

No jogo contínuo entre suas duas personagens, Miller observou em seguida que Picasso, trabalhando com Les demoiselles d’Avignon, tinha inquietações muito semelhantes às de cientistas trabalhando na fronteira do conhecimento. Ele estava no epicentro do debate sobre representação versus abstração e queria encontrar soluções estéticas novas. Todos os desenvolvimentos tecnológicos da época, o avião, o telégrafo, o automóvel, mudando a concepção de tempo e espaço, as “brincadeiras” dos fotógrafos, desenvolvimentos científicos como a radiografia que traziam mais à cena a ambiguidade da visão, os novos conceitos matemáticos e geométricos, como os poliedros complexos, os debates sobre as quatro dimensões, tudo entrava no caldo que Picasso cozinhava em busca de soluções estéticas e emerge com toda a força no quadro citado.

Miller ainda discorreu longamente, com riqueza de exemplos, sobre sua ideia de quanto a concepção foi determinante nos passos de suas duas personagens. “O que é inspirador na história de Einstein e de Picasso”, disse ao final, “é sua determinação e perseverança. Eles chegaram a resultados intelectuais notáveis em condições que levariam outros ao desespero. Sem exageros, podemos dizer que a arte moderna é Picasso e a ciência moderna é Einstein”.

*Esta matéria foi originalmente publicada por Mariluce Moura em fevereiro de 2009 no site da Revista Pesquisa FAPESP.

 

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