Escrevendo para ser lido, não só para se formar

Por Sarah Vital*

No primeiro dia da aula, entrei em uma sala cheia de estudantes de contabilidade ansiosos, com os olhos brilhantes. Eles têm seus livros de contabilidade e, mesmo em 2016, eles tinham suas próprias calculadoras. O curso em que estão matriculados é um “laboratório” de contabilidade. Eles estavam prontos para triturar números. Mas eu, uma bibliotecária e palestrante em comunicação empresarial, não posso ajudar estes alunos com análise custo-volume-lucro. O que eu tenho para fazer é ajudar estes estudantes a desenvolver uma escrita clara e profissional.

O corpo docente do Departamento de Contabilidade do Saint Mary’s College da Califórnia queria muito colocar a matéria obrigatória “Escrevendo na Disciplina” para fora das aulas tradicionais de contabilidade. Escutei mais de uma vez que “contadores conversando com contadores não podem aprender a conversar com clientes”. Esta foi a força motriz por trás do que eu pretendia fazer com os alunos na matéria. Eu sei que seus incríveis professores de contabilidade ensinarão a estes estudantes princípios e práticas de contabilidade. Como uma pessoa “leiga”, eu ensinaria a estes alunos como explicar isto a alguém que não tem estas horas de estudo.

Além do desafio de eliminar o jargão profissional, tive que lidar com um pouco da minha própria frustração. Os alunos passaram toda a carreira acadêmica escrevendo para um público específico: o professor. Muitas vezes, eles têm um objetivo muito específico para seus trabalhos: um diploma. O que eu poderia fazer para ajudar os alunos a verem que a importância de um trabalho vai além de uma nota? Como eu poderia encorajar os estudantes a pensar em uma audiência que vá além de um leitor empunhando uma caneta e atribuindo notas? Como eles poderiam praticar a escrita de forma clara e concisa para aqueles que ainda não conhecem antecedentes e contextos para preencher lacunas?

Editando a Wikipédia. Embora já seja uma fonte muito conhecida e muito usada pelos estudantes por curiosidade e, às vezes, para a tristeza do corpo docente, dever de casa, eu esperava usar a enciclopédia on-line como um veículo para que os alunos criassem e escrevessem para uma nova audiência: todo o mundo. Ao atribuir um artigo da Wikipédia para que um aluno editasse e escrevesse, eu esperava, haveria uma oportunidade para uma experiência guiada de escrever para ser lido e não só para se formar.

Ainda assim, entrei nessa nova tarefa com nervosismo. Este era um projeto novo para mim e eu realmente pensei em reduzir minha própria ansiedade e voltar às tarefas tradicionais que eu já tinha aperfeiçoado durante vários semestres. Mas com a ajuda de projetos e tarefas já estabelecidos e testados, projetados por professores que participaram anteriormente e pela equipe de Wiki Education Foundation, eu descobri que adicionar conteúdo novo ao meu programa era muito menos assustador. Eu comecei a partir de três lições pré-fabricadas muito simples, ajustando-as para focar em alguns tópicos menos discutidos em contabilidade. A cada sete dias, por três semanas, os alunos tiveram que trabalhar individualmente ou em pequenos grupos de três para completar cada uma das três atribuições. No final, a classe havia editado vários esboços de contabilidade, com contribuições que iam de simplesmente aumentar a consistência da formatação a criar vários parágrafos de conteúdo, encontrando fontes novas e verificáveis para citar.

Ao fim do projeto, pedi aos alunos que escrevessem uma observação sobre a atividade e o processo. As respostas foram predominantemente positivas. O retorno refletiu o que eu esperava desde o início. Eu queria que eles “escrevessem para serem lidos” e não que “escrevessem para se formarem”. O que descobri foi que as contribuições e as críticas da comunidade produziram muito mais impacto do que a nota final que receberam. Os alunos mencionaram a “responsabilidade” que eles sentiram ao escreverem algo que seria público, exatamente o que eu esperava.

Um exemplo disto foi quando um grupo de alunos percebeu que, poucos minutos depois de adicionar conteúdo – enquanto eles trabalhavam comigo na formatação de uma citação – alguém havia removido a contribuição e notado que o conteúdo era “não verificado”. Que lição incrível sobre como é vital citar fontes! Naquele caso, um professor apenas diminuiria a nota. No “mundo real”, seu trabalho pode ser apagado e considerado não confiável. Os estudantes ficaram de olhos bem abertos quando descobriram que tinham que prestar contas e corriam o risco de ter conteúdo apagado.

Logo depois da minha reflexão sobre este projeto, a Wiki Education Foundation publicou os resultados de um estudo que corroborou muito do que encontrei, especialmente no que se refere à motivação. Antes desta confirmação, eu contava apenas com as experiências e reflexões dos meus alunos. Estas opiniões por si só foram certamente suficientes para que eu continue usando este projeto no futuro para ajudar meus alunos a entenderem que seus trabalhos importam.

Sarah Vital é bibliotecária da área de negócios do Saint Mary’s College da Califórnia.

Imagem: Photo of Sarah Vital.jpg, por Jen Perez, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

*Este texto foi originalmente publicado no site da Wiki Education Foundation em 27 de junho de 2017.

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