Ciência precisa ou ciência acessível na mídia — por que não os dois? (pt. 2)

*Por Joshua Conrad Jackson, da Universidade de North Carolina, Ian Mahar, da Universidade de Boston, Jaan Altosaar, da Universidade de Princeton, e Michael Gaultois, da Universidade de Cambridge

(A primeira parte do texto foi publicado em 02 de abril)

O público quer ciência acessível

Ao passo que o debate sobre acesso aberto continua, o desejo e a necessidade das pessoas por soluções baseadas em evidências para dilemas médicos e sociais não diminuíram. Como consequência, vemos uma crescente onda de ciência popular em meios que, em termos de conteúdo e disponibilidade, são mais acessíveis que os próprios periódicos nos quais se baseiam para elaborar parte do conteúdo.

Essas plataformas diferem em precisão, partindo de blogs questionáveis que pregam “sete maneiras para ser feliz agora” até sites e revistas sérios, como Discover e American Scientist. Como parte de nossos esforços em conectar a divisão entre acessibilidade e precisão, cada um de nós contribui com conteúdo para o site sem fins lucrativos Useful Science, que faz a curadoria de pesquisas para o público geral por meio de sumários curtos e revisados e com um podcast que se aprofunda no assunto.

Contudo, até mesmo fontes respeitáveis não estão imunes às chamadas sensacionalistas. Em 2012, um artigo na ScienceNews sobre mimetismo em cobras recebeu o título de “She-male garter snakes: some like it hot“. Um artigo sobre neuroendocrinologia em carneiros machos foi intitulado como “Brokeback mutton” [N.T.: “mutton” serve para carneiros adultos] pelo Washing Post, e “Yep, they’re gay” pela revista Time. Essa tendência infeliz entre a ciência popular sugere que as publicações em acesso aberto, mesmo que elas se proliferem, ainda precisarão competir com postagens reluzentes que sacrificam a rígida validação pelo clique.

O crescimento de sites de comunicação científico que solicitam e direcionam perguntas, e que dão retorno direto e imediato para o publico geral, dão alguma esperança. Entre eles, o Quora e comunidades do Reddit como o AskScience. A popularidade dessas fontes (o AskScience tem oito milhões de inscritos) indicam que uma boa porção do público quer que a informação científica seja comunicada, sob demanda, de maneira precisa e acessível. Ademais, a falta de incentivo direto para contribuidores pode tornar a manipulação de conteúdo menos frequente.

Esses esforços são louváveis, mas sofrem da falta de credibilidade — qualquer autor pode alegar que fala da perspectiva de um expert. Até nos melhores cenários, quando autores são treinados em ciência ou em comunicação, as dicas não são desemaranhadas até ser publicada.

Há caminhos para resolver esses problemas. Jornalistas científicos devem solicitar retorno de experts independentes antes de publicar. Postagens em comunidades científicas podem passar por um acelerado processo de revisão entre pares. Em todo o caso, cientistas e comunicados da ciência devem trabalhar juntos para combinar a acessibilidade do conteúdo com rigor e precisão.

Quem irá liderar a revolução?

O presente estado da comunicação da ciência revela importante trabalho a ser feito, mas sem o fardo da responsabilidade.

Uma parte da responsabilidade parece recair sobre jornais científicos, mas a maior parte dos jornais são veículos voltados ao lucro, não indivíduos conscientes. Outra parte parece recair sobre veículos de mídia, mas muitos sites e revistas são espremidos pela intensa competição por dinheiro de publicidade. Além disso, repórteres são raramente treinados para entender ciência, deixados para contribuir para a evolução da disciplina.

O ônus, então está sobre os cientistas. Há 20 milhões de pessoas com formação em ciências ou engenharia somente nos Estados Unidos. Ao invés de consumir passivamente conteúdo midiático com alegações científicas ultrajantes, deveria ser a responsabilidade pessoal dos cientistas tornar as pesquisas disponíveis livremente, e também a moderação de comunidades científicas acessíveis para que elas sejam precisas e confiáveis. Ainda, os cientistas deveriam trabalhar com jornalistas para elaborar um guia de práticas para publicações, como uma verificação em que artigos populares são aprovados por especialistas antes da publicação, e deveriam falar quando informação imprecisa é disseminada.

É a hora de a comunidade científica agir; não apenas como individuais, mas também como grupos interdisciplinares. Se os cientistas assim agirem, a próxima geração de veículos de comunicação científica talvez seja formada por coalizões de jornalistas e pesquisadores (como no modelo colaborativo do site The Conversation) que divulguem mensagens que são animadoras e responsáveis. A ciência será não apenas mais interessante e confiável. Ela será também mais proveitosa.

*Texto originalmente publicado em inglês no site “The Conversation” e traduzido com autorização dos autores.

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