Análise de podcasts: um mergulho interseccional

*Por: Carolina Salles Carvalho

No meu projeto teórico, vou analisar podcasts que colocam as histórias de vida em primeiro plano, tendo como alicerce teórico a interseccionalidade, justamente por me permitir explorar relações de poder excludentes, a partir de diferentes marcadores (ex. raça, classe e gênero) que funcionam como categorias, muitas vezes, sobrepostas e invisíveis socialmente. Apresento brevemente dois dos podcasts aqui:

Nós, mulheres negras

O primeiro podcast foi elaborado pela produtora audiovisual Ester Dias, que também é apresentadora, e vinculado à Escola de Comunicação e Artes da USP. Em cada um dos dez episódios, uma convidada compartilha sua história de vida e o caminho (pouco conhecido) percorrido para alcançar o reconhecimento dentro de sua área de atuação. Ainda que cada trajetória seja única, temas como ancestralidade, tradições familiares, militância contra o racismo e pela inclusão, empoderamento, criatividade e resiliência, além da valorização das potencialidades individuais e das demais mulheres negras estão presentes, em maior ou menor grau. 

Rádio Batente – 1ª temporada (jornadas)

O podcast Rádio Batente é um projeto da ONG Repórter Brasil. Analiso a primeira temporada, em que é mostrado um dia na vida de um servidor público (ou trabalhador terceirizado) que atua em segmentos considerados essenciais, tendo como personagens um professor atuante na rede pública; uma assistente social que trabalha em uma casa de acolhimento para homens em situação de rua; uma dupla de profissionais da saúde (uma enfermeira e um agente comunitário de saúde), vinculados à uma Unidade Básica de Saúde; uma cobradora de ônibus e, por fim, um bombeiro. Aqui, um aspecto interessante a ser ressaltado é que o programa faz um contraponto sobre esse cotidiano antes e durante a pandemia, trazendo os reflexos da crise sanitária a partir da vivência desses trabalhadores.

Da teoria à empiria: um exemplo na literatura acadêmica

*Por: Carolina Salles Carvalho

Depois de me aprofundar no conceito de interseccionalidade e compreendê-lo no contexto da comunicação, busquei artigos que trouxessem exemplos de como esse alicerce teórico foi usado para a compreensão de produtos midiáticos. Destaco aqui, um dos artigos encontrados, escolhido por fazer uma leitura de um episódio de podcast, mídia que também é tema do meu primeiro artigo em construção, usando a interseccionalidade como teoria de apoio.  

Em um artigo sobre maternidade e feminismo interseccional, produzido a partir do podcast Mamilos, foi feita a análise de um episódio em particular, intitulado “Mães e Tabus”, publicado em maio de 2018 e com duração de uma hora e quarenta minutos. Nele, as apresentadoras do programa convidam duas mães e ativistas em direitos humanos – uma negra e outra branca – para debater pontos considerados espinhosos sobre o tema.

O recorte escolhido para essa publicação partiu do caminho metodológico trilhado por uma das autoras para a produção da sua dissertação de mestrado. No trabalho acadêmico original, ela ouviu a todos os episódios do podcast, atentando-se para temáticas e situações que se repetiam, sendo que, por fim, escolheu como objeto de estudo seis que abordavam, especificamente, a maternidade.

Durante todo o artigo, são destacados, majoritariamente, trechos ditos pela convidada negra, entremeados por citações de autoras que são referência na produção acadêmica sobre gênero, na luta feminista e, num afunilamento, para o movimento feminista negro, como María Lugones, Judith Butler e Audre Lorde.

Dentre os temas apresentados estão violência intrafamiliar, conflitos geracionais, assédio sexual, abandono parental, sobrecarga de funções relacionada à maternidade, desumanização da mulher negra e erotização das garotas negras. Também ganha destaque no episódio, a importância de orientar as meninas para o enfrentamento do machismo e do racismo desde muito cedo, em um equilíbrio tênue que tenta, concomitantemente, preservar a ingenuidade da infância e prepará-las para as violências cotidianas relacionadas a estas duas searas.

Embora tenha sido pautado em um único episódio, é interessante compreender que escolhas metodológicas são realizadas para o estudo de podcast, a partir da teoria da interseccionalidade.

Interseccionalidade e comunicação: um encontro bem-vindo

*Por: Carolina Salles Carvalho

Hoje, vou voltar à minha pesquisa teórica, inserindo a interseccionalidade no contexto da comunicação. Ainda que esse conceito/metodologia tenha nascido(a) atrelado(a) à área do direito como campo de estudo, a comunicação logo incorporou esse alicerce teórico para analisar produções midiáticas, a partir do conceito “interseccionalidade representacional”, que abarca a construção cultural e os sentidos marginalizados sobre os sujeitos, numa seara que abarca não só as produções midiáticas, mas que se fazem presente nas relações sociais.

No Brasil, a pesquisadora Fernanda Carrara é referência na área e aponta que os produtos jornalísticos, publicitários e de mídia massiva – da fotografia aos modos de interação assíncrona propostos pelas tecnologias digitais – podem reproduzir e reforçar dinâmicas de opressão interseccionais.

Essa autora propõe um quadro metodológico com o intuito de transcender o conceito e apresentar operadores analíticos e ferramentas epistemológicas para uso na nossa área, trazendo a imagem de uma roleta interseccional, em que que as varetas giram e “se iluminam” em busca de atravessamentos relevantes para o contexto de determinada pergunta de pesquisa: “(….) aqui se busca perceber como opressões interseccionais rasuram a subjetividade, os discursos, os produtos e espaços comunicacionais e podem ser fundamentais para composição dos sujeitos  e  dos  seus  comportamentos  em  interação. Nesse sentido, não se negligencia aqui o ethos de justiça social, essencial a qualquer  aplicação  do  conceito.  A interseccionalidade em Comunicação serve, portanto, como um aparato para expor injustiças representacionais e discursivas, propondo ferramentas de equidade”, ela ressalta em um artigo científico publicado em 2021.

Entrevistas para o primeiro episódio do podcast

*Por: Carolina Salles Carvalho

Nas últimas semanas, fiquei envolvida com a realização das entrevistas para o primeiro episódio do podcast Vivo com Parkinson, o meu projeto prático relacionado à bolsa. Como a proposta do podcast é “informar contado histórias”, partimos das trajetórias de duas pessoas que vivem com Parkinson para abordar o tema do diagnóstico.

Nesse primeiro episódio, a Marina Lazzarini, de São José dos Campos, e o Walter Amaral, de Fortaleza, compartilharam as suas vivências pessoais relacionadas à temática. Quem também colaborou foi o médico neurologista Dr. Henrique Ferraz, docente da UNIFESP, que detalhou o processo do diagnóstico. Por fim, a Drª Maria Elisa Pimentel Piemonte, que é fisioterapeuta, docente da Faculdade de Medicina da USP e coordenadora da rede Amparo, comentou as entrevistas, salientando questões fundamentais sobre o diagnóstico. Aliás, é o registro de uma conversa nossa, com ela fazendo o símbolo da rede Amparo, que ilustra esse texto.

Para finalizar, antecipo um comentário feito pela Drª. Maria Elisa sobre a importância do diagnóstico precoce na doença de Parkinson, mesmo sem que exista uma perspectiva de cura:

“Será que é mesmo melhor eu saber precocemente que eu tenho uma doença progressiva e incurável? Algumas pessoas podem pensar: bom, já que é incurável, é melhor eu saber o mais tarde possível. Mas, isso não é verdade. Por que? Mudanças de hábitos, aumento da atividade física, entre outros pontos, podem retardar a evolução da doença. (…) além disso, todas as doenças neurodegenerativas, incluindo a doença de Parkinson, são muito vulneráveis ao estresse e eu passar anos sem saber o que tenho, notando que meu corpo tem alguma coisa diferente, é um fator de estresse que pode acelerar a evolução da doença”.

Do Google Scholar para o Wikidata: a experiência do CEPID NeuroMat no WikidataCon 2021

*Por Erika Guetti Suca

No dia 31 de outubro tive a oportunidade de participar da conferência online WikidataCon 2021. No evento, juntamente com Éder Porto, fiz uma apresentação do estudo (ainda em andamento) sobre os dados bibliográficos da rede de colaboradores do NeuroMat. Nela compartilhamos as lições aprendidas e os desafios encontrados no processo da pesquisa, que começou com o uso do Google Scholar e continuou até a identificação das suas potencialidades e a integração das informações com o ambiente do Wikidata.

O evento aconteceu nos dias 29, 30 e 31 de outubro. No primeiro dia, a conferência focou na discussão de um futuro sustentável, destacando tópicos como a necessidade da equidade de conhecimento, diversidade e do conhecimento marginalizado. Por conta da diversidade dos moderadores, o ambiente ficou mais rico e possibilitou discussões nas principais línguas de América Latina: espanhol, português e francês.

Nos dois dias seguintes do WikidataCon foram ressaltados tópicos mais específicos, como discussões técnicas da plataforma, a estimulação de novas ideias e o reconhecimento dos aspectos chaves do crescimento do Wikidata. No último dia também foram abordadas questões direcionadas aos problemas urgentes e as áreas necessárias para a evolução da plataforma.