Ciência precisa ou ciência acessível na mídia — por que não os dois? (pt. 1)

*Por Joshua Conrad Jackson, da Universidade de North Carolina, Ian Mahar, da Universidade de Boston, Jaan Altosaar, da Universidade de Princeton, e Michael Gaultois, da Universidade de Cambridge

Todos os dias, milhões de pessoas usam os mecanismos de pesquisa com preocupações em comum, como “como eu posso perder peso?” ou “como eu posso ser mais produtivo?”. Em retorno, elas encontram matérias que oferecem dicas simples e soluções rápidas, supostamente baseadas em “estudos mostram que”.

Um olhar mais próximo sobre essas matérias, contudo, revela a preocupante ausência de rigor científico. Poucos importam-se em citar a pesquisa ou discutir a metodologia ou as limitações do estudo, e os autores raramente têm treinamento científico.

Enquanto jovens cientistas de quatro campos distintos (psicologia, química física e neurociência), nós percebemos que muitos dos textos sobre ciência, particularmente quando tratam de tópicos relevantes para o cotidiano dos leitores, não conseguem encontrar o equilíbrio entre acessibilidade e responsabilidade. Rigorosas descobertas compartilhadas por pesquisadores em jornais especializados são obscurecidos por jargões e paywalls, enquanto a ciência acessível compartilhada na Internet é pouco confiável, não regulada e frequentemente são “caça-cliques”.

Se essa crise de comunicação é devido a falta de vozes cientificamente letradas, uma solução pode ser a participação de mais cientistas na atividade. Eles têm a experiência em corrigir publicamente interpretações erradas de dados seus e de outros. Ao desenvolver novas maneiras para disseminar o conhecimento científico, eles podem ajudar a prevenir que matérias imprecisas e excessivamente promovidas se espalhem. Nós argumentamos que cientistas carregam a responsabilidade de reformar o modo como seus trabalhos são comunicados em última instância.

A ciência se perde na tradução

Publicações científicas — que operam através de um intenso processo de revisão entre pares — está florescendo. Em 2014, por volta de 2,5 milhões de artigos acadêmicos foram publicados e tratavam desde como reduzir emissões de carbono a como o Twitter influencia as estatísticas de doenças cardíacas e como exercitar-se regularmente pode prevenir inflamações ligadas à doenças reumáticas. Por causa de pesquisa recentes, sabemos que há pouca evidência de que vegetais geneticamente modificados não são saudáveis, e que comer menos carne é uma maneira simples para influenciar positivamente o meio-ambiente.

Essas são mensagens importantes, e quando as pessoas não as leem ou as escutam, pode haver consequências sérias. Campanhas desinformadas contra vacinação crescem, e doenças quase extintas retornam. Doenças mentais seguem vergonhosamente estigmatizadas. Mudança climática é classificada como ficção. As pessoas são equivocadamente convencidas que carne vermelha causa câncer e que comer chocolate amargo ajuda a perder peso.

Ciência rigorosa está trancada para fora

Então, como podemos garantir que todos tenham acesso a um conhecimento científico útil, proveitoso?

A maioria dos artigos científicos são voltados à audiência de outros experts em campos altamente especializados, sendo distantes do formato para o consumo popular. Entre complexa linguagem metodológica e frequentes acrônimos, até mesmo os cientistas têm dificuldades em acompanhar os jargões específicos de outras áreas, dando pouca esperança para aqueles com menos treinamento científico.

E um problema ainda mais significativa, no entanto, é que as pessoas de fora dos institutos de pesquisa não podem acessar a maioria dos artigos publicados. Muitos desses artigos estão escondidos atrás de paywalls das revistas e, assim, quem não está inscrito é forçado a pagar entre trinta e cinquenta dólares por um único artigo.

Essas paywalls não são meramente obstrutivas; nós podemos argumentas que elas também são anti-éticas. A maioria da pesquisa é financiada pelo dinheiro público, mas ainda assim quem paga seus impostos são cobrados para acessar artigos científicos.

Idealmente, a publicação científica passará a ter acesso aberto, em periódicos que ajudarão tanto pesquisadores quanto leitores. Para tanto, é necessário legislar sobre o “quase monopólio” das companhias de publicação científica, sobre as práticas predatórios de publicação e para garantir o acesso público à fontes científicas primárias.

(Segunda parte do texto será publicada em 04 de abril)

*Texto originalmente publicado em inglês no site “The Conversation” e traduzido com autorização dos autores.

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Tornando o conhecimento público usando tecnologia educacional

Por Jami Mathewson*

Pelo nono ano, professores da Universidade Xavier da Louisiana (XULA) se uniram para experimentar novas pedagogias em suas salas de aula. Seu grupo, a Comunidade do Corpo Docente de Pesquisadores em Ensino (FaCTS), é financiado pela Fundação Andrew Mellon e oferece bolsas para que os participantes explorem o tema do ano. O tema para o ano acadêmico 2017-18 é “Tornar o conhecimento público usando a tecnologia educacional.” A Dra. Megan Osterbur, que participa do programa em sala de aula da Wiki Education Foundation, ajudou a organizar o grupo deste ano de candidatos selecionados e viu um claro alinhamento com as atividades da Wikipédia. Afinal, a Wikipédia serve como tecnologia educacional para estudantes editores e é tão pública quanto o conhecimento deve ser em 2017.

Estamos entusiasmados em trabalhar com vários participantes do FaCTS, pois incorporam atividades com Wikipédia em seus vários departamentos. Como parte da bolsa, Megan decidiu trazer eu e Samantha Weald para o período de planejamento intensivo de uma semana em maio. Nós nos juntamos durante os primeiros dois dias, quando os participantes fizeram um profundo mergulho nos componentes da Wikipédia. Colaboramos para conceber atividades significativas e mostramos as ferramentas e os treinamentos da Wiki Education Foundation disponíveis para instrutores e alunos. Nós discutimos extensivamente como a Wikipédia é talvez a plataforma mais relevante para o conhecimento público para os estudantes de hoje.

De acordo com Megan, quando pensamos em conhecimento público, devemos considerar três coisas: audiência, acessibilidade e propósito.

Audiência

Quando os alunos criam conhecimento, pedimos que considerem o público-alvo pretendido. Quando trazemos a tecnologia para o processo de criação de conhecimento, também devemos perguntar: com base na plataforma e na tecnologia que você está usando, quem é o público real?

Em relação à Wikipédia, a resposta vem facilmente aos alunos, já que eles estão visitando o site há anos. Por sua familiaridade, eles entendem que todos podem ler a Wikipédia quando buscam informações sobre um tópico. Compreendem inerentemente o público da Wikipédia e, portanto, o idioma que devem usar para se comunicarem efetivamente. Este entendimento é muito mais fácil para eles do que quando escrevem um artigo acadêmico ou um texto tradicional.

Acessibilidade

Para que o conhecimento seja verdadeiramente público, ele deve ser acessível pela audiência. Se os acadêmicos perseguem uma carreira em pesquisa e ensino superior para informarem o público e compartilharem algo que eles amam conhecimento e aprendizado ao longo da vida com o mundo, eles estão alcançando seus objetivos através de meios tradicionais? Megan nos fez pensar sobre trabalhos publicados e quem pode acessá-los. Para artigos de periódicos, livros acadêmicos ou livros didáticos, o grupo argumentou que a audiência é limitada aos pares da academia, alguns alunos do ensino superior e membros das famílias dos autores que podem não entender completamente o jargão dos textos. Uma participante do FaCTS brincou dizendo que “ninguém interessante” tem acesso ao seu trabalho publicado. Megan apontou que ela sabe que “a linda dissertação em capa dura que deu a sua mãe tem mais poeira sobre ela do que as impressões digitais.”

Um dos principais apelos da Wikipédia aos instrutores como plataforma de publicação para estudantes é a ampla acessibilidade do público. Alunos de ensino superior, estudantes do ensino médio, avós, crianças, professores, profissionais e todos os outros entre eles leem a Wikipédia, de modo que os alunos editores podem compartilhar pesquisas e conhecimentos acadêmicos importantes com uma audiência extensa. Dito isto, para que uma fonte de conhecimento seja verdadeiramente acessível, os leitores devem ter os meios críticos e a leitura digital para compreender o conteúdo e avaliar sua confiabilidade. Outra vantagem das atividades com a Wikipédia é que, ao se envolver com este processo de aprendizado, os estudantes desenvolvem suas habilidades de leitura midiática. No final, eles não só estão criando conhecimento para os outros, mas também se tornando melhores consumidores de conhecimento. A Wikipédia, revistas acadêmicas, livros didáticos e outras fontes de conhecimento se tornam ainda mais acessíveis aos estudantes graças às habilidades que desenvolvem ao contribuir para a Wikipédia.

Propósito

Os participantes do FaCTS discutiram o papel que o propósito desempenha na importância do conhecimento público. Com a facilitação de Megan, identificamos os seguintes propósitos para o conhecimento público:

Abordagens igualitárias à informação, conhecimento e aprendizado.

Alinhamento com uma missão institucional. Por exemplo, a XULA visa criar justiça social e líderes globais. Ao criar informações acessíveis para o mundo, incluindo pessoas que não têm acesso à educação institucionalizada, seus alunos criam uma sociedade mais justa e constroem suas próprias habilidades de liderança.

Necessidade econômica: se mantivermos o conhecimento privado e restrito, as massas serão menos informadas e podemos acabar com uma economia terciária sem base de conhecimento e muito pouca mobilidade econômica.

Construindo uma base para o aprendizado ao longo da vida: Ao fornecer mecanismos para que as pessoas aprendam continuamente, elas podem aumentar sua qualidade de vida ao longo do tempo.

Consumo crítico e leitura multimodal no contexto da cacofonia de informação: os alunos se envolvem com novas informações que não pressupõem autoridade, mas justapõem os novos dados com esquemas prévios de conhecimento e informação. Ao obter novos dados, eles podem avaliar onde eles se encaixam com outros esquemas de conhecimento que já possuem. É importante que a informação também possa servir ao propósito de desenvolvimento da leitura multimodal, ajudando os consumidores a entender tabelas, gráficos e outras informações não baseadas em texto.

Como um recurso acessado por centenas de milhões de pessoas todos os meses, a edição da Wikipédia ajuda os alunos a criarem conhecimento com propósito. Eles identificam informações acadêmicas que estão faltando na Wikipédia, pesquisam os tópicos e preenchem as lacunas de conteúdo. Conforme os leitores da Wikipédia pesquisam informações sobre o assunto, eles podem aprender de fontes que de outra forma não poderiam ter acesso, seja porque estão atrás de um paywall, seja porque não possuem capacidades avançadas de leitura dentro do campo para compreender a literatura disponível. Estes leitores inserem estas informações em suas vidas diárias e profissionais, cumprindo o propósito de compartilhar o conhecimento.

Aprendemos muito sobre como os instrutores fundem estes dois conceitos de conhecimento público e tecnologia educacional e estamos ansiosos para trabalhar com mais estudantes na XULA. Se você é um instrutor interessado em aumentar o conhecimento público em seu campo, pedindo aos alunos para editarem a Wikipédia, entre em contato conosco via contact@wikiedu.org.

Jami Mathewson é colaborador da Wiki Education Foundation.

Imagem: FaCTS workshop 5.jpg. Conteúdos do site da Wiki Education Foundation estão em CC-BY-SA.

*Este texto foi originalmente publicado no site da Wiki Education Foundation em 16 de junho de 2017.

Wikipédia constrói sistema de biblioteca digital

Por Jake Orlowitz e Sam Walton*

Através do programa Biblioteca Wikipédia, os recursos disponíveis para wikipedistas continuam crescendo, permitindo que estes editores usem as melhores fontes disponíveis para melhorar a Wikipédia.

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Jornalista do Núcleo de Divulgação Científica da USP, Tabita Said fala sobre o jornalismo científico no país

Tabita Said. Créditos: Arquivo pessoal
Tabita Said. Créditos: Arquivo pessoal

Por Marília Carrera

Talvez isto seja o mais fascinante na ciência. Você passa a ouvir nomes de áreas de estudo que jamais imaginou que existiam. Mesmo assim, elas podem se tornar atrativas a partir da maneira que são apresentadas a você.

Esta é a perspectiva de Tabita Said, que trabalha no Núcleo de Divulgação Científica da Universidade de São Paulo (USP). A equipe de difusão do Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão em Neuromatemática (CEPID NeuroMat) entrevistou por email a jornalista científica, que contou um pouco sobre a rotina da área dedicada à divulgação da produção científica na instituição e fez considerações sobre o jornalismo científico no país.

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Especialistas da USP revisam verbete Lei dos Grandes Números da Wikipédia

Anotações do professor do IME / USP Anatoli Iambartsev no verbete Lei dos Grandes Números da Wikipédia impresso
Anotações do professor do IME / USP Anatoli Iambartsev no verbete Lei dos Grandes Números da Wikipédia impresso

Por Marília Carrera

A equipe de difusão científica do Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão em Neuromatemática (CEPID NeuroMat) caminha para a reta final da melhoria do verbete Lei dos Grandes Números da Wikipédia.

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Comunidade Commons melhora dados de imagem da parceria NeuroMat e MAV

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Imagem de um mini-pônei desidratado teve seus metadados melhorados pela comunidade. Crédito: Museu de Anatomia Veterinária da FMVZ USP / Wagner Souza e Silva

Por Lucas Belo

A parceria entre o NeuroMat e o Museu de Anatomia Veterinária da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (MAV-FMVZ) da USP para o carregamento no Wikimedia Commons de imagens cedidas pelo MAV de sua coleção tem gerado bons frutos. O projeto atende aos principais objetivos destas instituições, dentre eles a disseminação científica e o aumento da visibilidade do acervo do museu, mas também o de relação com uma comunidade que se beneficia e pode beneficiar o material disponibilizado de diversas formas, como melhorar a qualidade da imagem ou ainda revisar as informações colocadas. Continue Lendo “Comunidade Commons melhora dados de imagem da parceria NeuroMat e MAV”

Pesquisador estuda as contribuições do NeuroMat para a ciência aberta

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Pesquisador Jean Carlos Ferreira, durante visita ao NeuroMat. Crédito: Wikimedia Commons/CEPID NeuroMat, CC BY-SA 4.0

Por Marília Carrera

Não é raro encontrar o pesquisador Jean Carlos Ferreira pelos corredores do Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão em Neuromatemática (CEPID NeuroMat). Mestre em Política Científica e Tecnológica no Instituto de Geociência da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Jean Carlos realiza pesquisa etnográfica sobre o NeuroMat para o doutorado também em Política Científica e Tecnológica.

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