Revista Pesquisa FAPESP: Disseminação desigual – pt. 2

*Por Rodrigo de Oliveira Andrade

(continuação da matéria postada no dia 10 de março)

Paradoxo
O estudo publicado na PLOS ONE destaca um fato curioso relacionado à percepção sobre o reúso: os pesquisadores que mais se preocupam com a credibilidade dos dados que pretendem utilizar são os que se mostram mais dispostos a reaproveitar registros produzidos por terceiros. Já os que quase nunca reutilizam têm mais dificuldade para entender os benefícios dessa prática e avaliar a qualidade das informações disponíveis.

No estudo How and why researchers share data (and why they don’t), desenvolvido em 2014 pela editora John Wiley & Sons com quase 3 mil pesquisadores de diferentes áreas e países, verificou-se que os alemães são os mais dispostos a compartilhar dados, com o objetivo de aumentar a visibilidade e garantir a transparência de suas pesquisas. Já os chineses são menos propensos a dividir com outros informações de pesquisa, sobretudo porque isso não é um requisito para o financiamento. Os brasileiros reclamaram do trabalho extra para organizar essa massa de dados, dos custos para hospedá-la e das dificuldades para encontrar repositórios adequados.

Em estudos sobre o reúso de dados científicos, pesquisadores frequentemente alegam que se sentem receosos em fornecer suas informações porque ainda querem explorá-las em novos estudos ou temem não receber os créditos pela cessão. Esses e outros temores também foram verificados no relatório Open Data: The research perspective, da editora Elsevier. Mas o mesmo estudo constatou que 73% dos entrevistados julgavam que o acesso a dados científicos de terceiros poderia beneficiar suas próprias pesquisas e que 64% deles se mostravam dispostos a compartilhar informações com outros pesquisadores.

O principal desafio, segundo Claudia Bauzer Medeiros, é promover o reúso de informações científicas, mostrando aos pesquisadores os benefícios da prática, e ao mesmo tempo agir para combater os casos de apropriação indevida de dados. Outra estratégia desejável, segundo ela, é a criação de cursos que ensinem pesquisadores e alunos a preparar dados e experimentos para compartilhamento. “Esse tipo de treinamento já é padrão em vários países do mundo, tendo em alguns casos se tornado uma exigência na formação de pesquisadores”, completa.

Renata Curty argumenta que é preciso investir em sistemas que verifiquem a qualidade dos dados disponibilizados e em recompensas para os pesquisadores que adotarem essa prática. Nos Estados Unidos já existem algumas iniciativas nesse sentido. Uma delas é a Plataforma Global de Informações sobre Biodiversidade (GBIF), que reúne quase 850 milhões de registros de espécies, 6 milhões deles oriundos do Brasil (ver Pesquisa FAPESP nº 263). Ao cadastrar os dados primários de suas pesquisas na GBIF, os pesquisadores podem gerar um Data Paper, um documento que pode ser publicado on-line em plataformas de acesso aberto voltadas para descrever conjuntos de informações de pesquisas consideradas valiosas. Existem publicações dedicadas a disseminar esses artigos de dados, segundo a pesquisadora da UEL, como o Biodiversity Data Journal, oData in Brief, da Elsevier, e o Scientific Data, do grupo Nature.

*Essa reportagem foi publicada originalmente e na íntegra na edição de Março de 2018 da revista Pesquisa FAPESP e pode ser acessada aqui.

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Revista Pesquisa FAPESP: Disseminação desigual – pt. 1

*Por Rodrigo de Oliveira Andrade

O reúso de dados de pesquisa vem crescendo, mas ainda está longe de se consolidar no ambiente científico. A prática, que consiste em fazer estudos aproveitando dados gerados em experimentos anteriores de outros pesquisadores, dissemina-se mais efetivamente nas ciências exatas e biológicas, enquanto enfrenta resistência nas ciências sociais. Em geral, os pesquisadores que trabalham com informações obtidas por meio de modelos computacionais ou sensores remotos se sentem mais confortáveis em reaproveitar dados de terceiros. Essa é uma das conclusões de um artigo publicado na revista PLOS ONE pela cientista de dados Renata Curty, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), no Paraná.

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Revista Pesquisa FAPESP – Arthur Miller: As representações da simultaneidade

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(crédito: pixabay/freephotocc)

 

Por Mariluce Moura*

À primeira vista parece difícil estabelecer paralelos entre Einstein e Picasso – não, entretanto, para Arthur Miller, autor entre outros livros de Einstein, Picasso: space, time and the beauty that causes havoc (Basic Books, 2001). Porque se para o senso comum nada faria convergir essas duas personagens, afora talvez o fato de terem ambos sido grandes faróis a iluminar a construção do conhecimento e da cultura no século XX, e mais a coincidência de terem vivido cada um o seu período de mais intensa criatividade entre 1902 e 1909, para Miller isso é apenas um ponto de partida que lhe permite relacionar estreitamente o percurso criativo daqueles que define como o cientista e o artista mais importantes do século passado.

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Revista Pesquisa FAPESP — Roberto Lent: Especialista em Conexões

 

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Crédito: Massachusetts General Hospital and Draper Labs/Wikimedia Commons/CC BY-SA 4.0

Por Ricardo Zorzetto*

O neurocientista Roberto Lent investiga há quase 40 anos a formação e a reorganização das conexões entre as áreas do cérebro. Mais recentemente, se propôs a estimular outro tipo de interação: entre pesquisadores com empreendedores e educadores, a fim de produzir conhecimentos que aprimorem as estratégias de aprendizagem e cheguem rapidamente a professores e alunos nas salas de aula. Ele espera que o desenvolvimento dessa área, a chamada ciência para a educação, contribua para melhorar mais rapidamente o nível educacional das crianças e dos adolescentes brasileiros.

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Revista Pesquisa FAPESP – A arte do Cientista

 

Por Neldson Marcolin *

Ciência e arte se reuniram por 48 anos na figura discreta de João Maria Franco de Camargo. Amigos, colegas pesquisadores e alunos não sabem o que falava mais alto – se os desenhos que saíam de seu bico de pena com a naturalidade de quem escreve bilhetes ou se o interesse e cuidado com que coletava e nomeava abelhas, seu objeto de estudo. Ele criou uma das melhores e maiores coleções de Meliponini neotropicais (abelhas sem ferrão), grupo no qual era especialista, e descreveu três novos gêneros e 86 espécies em colaboração com outros cientistas ou sozinho.

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Revista Pesquisa FAPESP — Momento de transição

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Créditos: Wikimedia Commons/CC BY-SA 4.0

Por Carlos Fiovaravanti*

Em fevereiro de 2012, o jornal espanhol Público parou de publicar a edição impressa, mantendo apenas a on-line. Uma das 126 pessoas dispensadas foi a editora de Ciência, Patrícia Fernández de Lis, que tratou de dar forma a uma alternativa em que já vinha pensando. Vendo que as notícias de ciência atraíam muitos leitores, ela formou uma equipe, conseguiu patrocinadores e criou o site Materia, lançado em julho de 2012, com notícias em primeira mão sobre ciência e tecnologia. Em um ano havia 1,5 milhão de usuários únicos e acordos de republicação de seu conteúdo em cerca de 200 jornais de países de língua espanhola. Em setembro de 2014 o jornal El País, o de maior circulação na Espanha, começou a republicar com exclusividade o noticiário do Materia e Patrícia assumiu o cargo de redatora-chefe de Ciência e Tecnologia do jornal, onde trabalhara antes de ir para o Público.

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Revista Pesquisa FAPESP — Paz relativa

 

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Créditos: Wikimedia Commons/CC BY-SA 4.0

Por Carlos Fiovaravanti*

Em 2008, Ana Lúcia Azevedo, então editora de ciência do jornal O Globo, recebeu a tarefa de preparar com urgência uma reportagem sobre os 200 anos da chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro. O historiador a quem ela ligou para marcar uma entrevista concordou com seu plano de reportagem e em seguida lhe pediu: “Venha daqui a dois meses”.

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