Blogs como forma de comunicação científica na era das redes sociais

*Por Lilian Nassi-Calò

Nos anos 2.000 foram lançados milhares de blogs com alguma referência à ciência. Destes, cerca de 2.500 podiam ser considerados verdadeiramente científicos, muitos deles mantidos por instituições acadêmicas e periódicos renomados, porém também inúmeros deles escritos por estudantes de pós-graduação, pós-doutores, professores universitários, professores de ciências e jornalistas profissionais, segundo um estudo publicado em 2007 no periódico Cell.

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Ciência precisa ou ciência acessível na mídia — por que não os dois? (pt. 2)

*Por Joshua Conrad Jackson, da Universidade de North Carolina, Ian Mahar, da Universidade de Boston, Jaan Altosaar, da Universidade de Princeton, e Michael Gaultois, da Universidade de Cambridge

(A primeira parte do texto foi publicado em 02 de abril)

O público quer ciência acessível

Ao passo que o debate sobre acesso aberto continua, o desejo e a necessidade das pessoas por soluções baseadas em evidências para dilemas médicos e sociais não diminuíram. Como consequência, vemos uma crescente onda de ciência popular em meios que, em termos de conteúdo e disponibilidade, são mais acessíveis que os próprios periódicos nos quais se baseiam para elaborar parte do conteúdo.

Essas plataformas diferem em precisão, partindo de blogs questionáveis que pregam “sete maneiras para ser feliz agora” até sites e revistas sérios, como Discover e American Scientist. Como parte de nossos esforços em conectar a divisão entre acessibilidade e precisão, cada um de nós contribui com conteúdo para o site sem fins lucrativos Useful Science, que faz a curadoria de pesquisas para o público geral por meio de sumários curtos e revisados e com um podcast que se aprofunda no assunto.

Contudo, até mesmo fontes respeitáveis não estão imunes às chamadas sensacionalistas. Em 2012, um artigo na ScienceNews sobre mimetismo em cobras recebeu o título de “She-male garter snakes: some like it hot“. Um artigo sobre neuroendocrinologia em carneiros machos foi intitulado como “Brokeback mutton” [N.T.: “mutton” serve para carneiros adultos] pelo Washing Post, e “Yep, they’re gay” pela revista Time. Essa tendência infeliz entre a ciência popular sugere que as publicações em acesso aberto, mesmo que elas se proliferem, ainda precisarão competir com postagens reluzentes que sacrificam a rígida validação pelo clique.

O crescimento de sites de comunicação científico que solicitam e direcionam perguntas, e que dão retorno direto e imediato para o publico geral, dão alguma esperança. Entre eles, o Quora e comunidades do Reddit como o AskScience. A popularidade dessas fontes (o AskScience tem oito milhões de inscritos) indicam que uma boa porção do público quer que a informação científica seja comunicada, sob demanda, de maneira precisa e acessível. Ademais, a falta de incentivo direto para contribuidores pode tornar a manipulação de conteúdo menos frequente.

Esses esforços são louváveis, mas sofrem da falta de credibilidade — qualquer autor pode alegar que fala da perspectiva de um expert. Até nos melhores cenários, quando autores são treinados em ciência ou em comunicação, as dicas não são desemaranhadas até ser publicada.

Há caminhos para resolver esses problemas. Jornalistas científicos devem solicitar retorno de experts independentes antes de publicar. Postagens em comunidades científicas podem passar por um acelerado processo de revisão entre pares. Em todo o caso, cientistas e comunicados da ciência devem trabalhar juntos para combinar a acessibilidade do conteúdo com rigor e precisão.

Quem irá liderar a revolução?

O presente estado da comunicação da ciência revela importante trabalho a ser feito, mas sem o fardo da responsabilidade.

Uma parte da responsabilidade parece recair sobre jornais científicos, mas a maior parte dos jornais são veículos voltados ao lucro, não indivíduos conscientes. Outra parte parece recair sobre veículos de mídia, mas muitos sites e revistas são espremidos pela intensa competição por dinheiro de publicidade. Além disso, repórteres são raramente treinados para entender ciência, deixados para contribuir para a evolução da disciplina.

O ônus, então está sobre os cientistas. Há 20 milhões de pessoas com formação em ciências ou engenharia somente nos Estados Unidos. Ao invés de consumir passivamente conteúdo midiático com alegações científicas ultrajantes, deveria ser a responsabilidade pessoal dos cientistas tornar as pesquisas disponíveis livremente, e também a moderação de comunidades científicas acessíveis para que elas sejam precisas e confiáveis. Ainda, os cientistas deveriam trabalhar com jornalistas para elaborar um guia de práticas para publicações, como uma verificação em que artigos populares são aprovados por especialistas antes da publicação, e deveriam falar quando informação imprecisa é disseminada.

É a hora de a comunidade científica agir; não apenas como individuais, mas também como grupos interdisciplinares. Se os cientistas assim agirem, a próxima geração de veículos de comunicação científica talvez seja formada por coalizões de jornalistas e pesquisadores (como no modelo colaborativo do site The Conversation) que divulguem mensagens que são animadoras e responsáveis. A ciência será não apenas mais interessante e confiável. Ela será também mais proveitosa.

*Texto originalmente publicado em inglês no site “The Conversation” e traduzido com autorização dos autores.

Um estudo sobre o discurso de três revistas de divulgação científica

Reduzir a divulgação científica à “tradução” de artigos científicos para uma linguagem “comum” não dá conta da complexidade da atividade e, menos ainda, da complexidade da própria linguagem. No contexto brasileiro, publicações de divulgação científica apresentam características textuais distintas, que variam de acordo com os autores, com os leitores e com as empresas que as administram. Os modos de divulgação da ciência das revistas Scientific American Brasil, Pesquisa FAPESP e Superinteressante são tema do artigo Os discursos da divulgação científica: Um estudo de revistas especializadas em divulgar ciência para o público leigo“, escrito por Elizabeth Gonçalves, da Universidade Metodista de São Paulo, e publicado pela Brazilian Journalism Research

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Ciência precisa ou ciência acessível na mídia — por que não os dois? (pt. 1)

*Por Joshua Conrad Jackson, da Universidade de North Carolina, Ian Mahar, da Universidade de Boston, Jaan Altosaar, da Universidade de Princeton, e Michael Gaultois, da Universidade de Cambridge

Todos os dias, milhões de pessoas usam os mecanismos de pesquisa com preocupações em comum, como “como eu posso perder peso?” ou “como eu posso ser mais produtivo?”. Em retorno, elas encontram matérias que oferecem dicas simples e soluções rápidas, supostamente baseadas em “estudos mostram que”.

Um olhar mais próximo sobre essas matérias, contudo, revela a preocupante ausência de rigor científico. Poucos importam-se em citar a pesquisa ou discutir a metodologia ou as limitações do estudo, e os autores raramente têm treinamento científico.

Enquanto jovens cientistas de quatro campos distintos (psicologia, química física e neurociência), nós percebemos que muitos dos textos sobre ciência, particularmente quando tratam de tópicos relevantes para o cotidiano dos leitores, não conseguem encontrar o equilíbrio entre acessibilidade e responsabilidade. Rigorosas descobertas compartilhadas por pesquisadores em jornais especializados são obscurecidos por jargões e paywalls, enquanto a ciência acessível compartilhada na Internet é pouco confiável, não regulada e frequentemente são “caça-cliques”.

Se essa crise de comunicação é devido a falta de vozes cientificamente letradas, uma solução pode ser a participação de mais cientistas na atividade. Eles têm a experiência em corrigir publicamente interpretações erradas de dados seus e de outros. Ao desenvolver novas maneiras para disseminar o conhecimento científico, eles podem ajudar a prevenir que matérias imprecisas e excessivamente promovidas se espalhem. Nós argumentamos que cientistas carregam a responsabilidade de reformar o modo como seus trabalhos são comunicados em última instância.

A ciência se perde na tradução

Publicações científicas — que operam através de um intenso processo de revisão entre pares — está florescendo. Em 2014, por volta de 2,5 milhões de artigos acadêmicos foram publicados e tratavam desde como reduzir emissões de carbono a como o Twitter influencia as estatísticas de doenças cardíacas e como exercitar-se regularmente pode prevenir inflamações ligadas à doenças reumáticas. Por causa de pesquisa recentes, sabemos que há pouca evidência de que vegetais geneticamente modificados não são saudáveis, e que comer menos carne é uma maneira simples para influenciar positivamente o meio-ambiente.

Essas são mensagens importantes, e quando as pessoas não as leem ou as escutam, pode haver consequências sérias. Campanhas desinformadas contra vacinação crescem, e doenças quase extintas retornam. Doenças mentais seguem vergonhosamente estigmatizadas. Mudança climática é classificada como ficção. As pessoas são equivocadamente convencidas que carne vermelha causa câncer e que comer chocolate amargo ajuda a perder peso.

Ciência rigorosa está trancada para fora

Então, como podemos garantir que todos tenham acesso a um conhecimento científico útil, proveitoso?

A maioria dos artigos científicos são voltados à audiência de outros experts em campos altamente especializados, sendo distantes do formato para o consumo popular. Entre complexa linguagem metodológica e frequentes acrônimos, até mesmo os cientistas têm dificuldades em acompanhar os jargões específicos de outras áreas, dando pouca esperança para aqueles com menos treinamento científico.

E um problema ainda mais significativa, no entanto, é que as pessoas de fora dos institutos de pesquisa não podem acessar a maioria dos artigos publicados. Muitos desses artigos estão escondidos atrás de paywalls das revistas e, assim, quem não está inscrito é forçado a pagar entre trinta e cinquenta dólares por um único artigo.

Essas paywalls não são meramente obstrutivas; nós podemos argumentas que elas também são anti-éticas. A maioria da pesquisa é financiada pelo dinheiro público, mas ainda assim quem paga seus impostos são cobrados para acessar artigos científicos.

Idealmente, a publicação científica passará a ter acesso aberto, em periódicos que ajudarão tanto pesquisadores quanto leitores. Para tanto, é necessário legislar sobre o “quase monopólio” das companhias de publicação científica, sobre as práticas predatórios de publicação e para garantir o acesso público à fontes científicas primárias.

(Segunda parte do texto será publicada em 04 de abril)

*Texto originalmente publicado em inglês no site “The Conversation” e traduzido com autorização dos autores.

O trabalho desenvolvido pelo NeuroMat no Museu Paulista

Giovanna e Ernandes - Museu Paulista
Giovanna e Ernandes atuando na seleção das imagens do Guilherme Gaensly no Museu Paulista (Crédito: Célio Costa Filho)

Por Giovanna Fontenelle

Olá,

Meu nome é Giovanna Fontenelle, sou a nova integrante da equipe de difusão científica do NeuroMat. Depois de me apresentar no meu post anterior e explicar os pormenores das minhas atividades práticas e teóricas, aproveito este espaço para descrever com mais detalhamento a minha atuação no Museu Paulista.

As minhas atividades no Ipiranga são supervisionadas pela professora Solange Ferraz de Lima, diretora do museu, e pelo Dorival Pegoraro Junior, responsável pela difusão cultural. A minha atuação acontece de um a dois dias por semana em conjunto com o Ernandes Evaristo Lopes, funcionário que cuida das imagens digitalizadas da instituição.

Por enquanto, atuei na seleção das imagens na rede do museu e no recolhimento de seus dados. Em breve, trabalharei com o Icono, programa da instituição que guarda todo o seu acervo e conta com informações bibliográficas e dados exclusivos, os quais serão aproveitados nos artigos da Wikipédia e no sistema de categorias do Wikimedia Commons.

A parceria do NeuroMat com o Museu Paulista já acontece desde 2017. No ano passado, foram carregadas 150 pinturas pertencentes à instituição no Wikimedia Commons, que foram utilizadas no projeto do professor João Alexandre Peschanski na disciplina de Ciência Política, na Faculdade Cásper Líbero. Os alunos ficaram responsáveis por criar verbetes no Wikipédia sobre as obras e produzir áudiodescrições sobre cada imagem.

Agora, com a minha presença, as atividades e a atuação da parceria passam a ser mais frequentes. Desde o início do projeto, há um mês, já realizamos o carregamento de 152 imagens de cartões postais e fotografias de Guilherme Gaensly no Wikimedia Commons e de seus respectivos metadados no Wikidata.

O próximo passo, que já está bastante encaminhado, é o upload do restante das pinturas do Museu Paulista. Serão carregadas cerca de 900 imagens no Commons e no Wikidata. Deste total, 200 ainda não estão digitalizadas pela instituição.

Depois do upload, a intenção é trabalhar no conteúdo teórico dessas obras no Wikipédia, com a criação de verbetes e listas de pinturas. Uma página que já está com o trabalho encaminhado e que se baseará nesse carregamento, é a sobre o Eixo Monumental do Museu do Ipiranga.

Após esse grande upload, faremos o carregamento das fotografias de Werner Haberkorn e do Fotolabor. Essas imagens retratam a cidade de São Paulo durante as décadas de 1940 e 1950. Para esse trabalho, conseguimos autorização do Museu e da família que tem os direitos dessas obras e precisaremos de uma licença especial para compartilhar na Wikipédia, que se vale do caráter histórico das fotos.

O último passo programado é o carregamento das imagens da Mapoteca. Esta atividade ainda não foi iniciada. Eventualmente, faremos outros uploads.

 

Novas Mídias na Construção de Projetos Museológicos: o novo projeto do NeuroMat

Giovanna está em pé, em frente a uma lousa digital, onde está um slide com o título de seu projeto: "novas mídias na construção de projeto museológicos"
Giovanna Fontenelle apresentando o seu projeto de pesquisa no NeuroMat (Crédito: Wikimedia Commons/Joalpe – Own work, CC BY-SA 4.0)

Por Giovanna Fontenelle

Olá,

Meu nome é Giovanna Fontenelle, sou jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero em 2017 e estudante de História na Universidade de São Paulo. Em fevereiro, integrei a equipe de difusão científica do NeuroMat com o intuito de atuar na digitalização dos acervos de museus ou exposições.

Este trabalho é composto de duas fases: o upload de imagens no Wikimedia Commons e a melhorias dos verbetes no Wikipédia sobre obras de arte. Especialmente, no momento, estou atuando com o conteúdo relacionado ao Museu Paulista.

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Participação de empresas em papers de P&D ainda é baixa no Brasil

Dos cerca de 250 mil artigos científicos publicados por pesquisadores brasileiros entre 2011 e 2016, apenas 1% tinha pelo menos um autor afiliado às empresas privadas, segundo dados apresentados no relatório Research in Brazil, da Clarivate Analytics, antiga divisão de propriedade e ciência da Thomson Reuters. O documento, divulgado em janeiro, avaliou o desempenho da pesquisa brasileira em um contexto global a partir de dados do InCites, plataforma baseada em artigos, trabalhos de eventos, livros, patentes, sites, estruturas químicas, compostos e reações indexados na Web of Science.

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