A Wikipédia muda a perspectiva do aprendizado: uma entrevista com Juliana Bastos Marques

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Juliana Bastos Marques no Wikipedia in Higher Education Summit, em 2011. Disponível no Wikimedia Commons.

Por David Alves

Apesar de a Wikipédia ainda enfrentar resistência no meio acadêmico, existe uma comunidade que utiliza a enciclopédia virtual na difusão científica no Brasil. Entre as pessoas que compõem essa comunidade pioneira está Juliana Bastos Marques, doutora em História pela Universidade de São Paulo e professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Ela aplica a Wikipédia em sala de aula desde 2011, e já possui artigos publicados sobre o uso das ferramentas colaborativas em atividades pedagógicas, além de ser uma editora da enciclopédia. Confira abaixo a entrevista que a historiadora concedeu à Equipe de Difusão do NeuroMat.

NeuroMat (NM): Você começou a editar a Wikipédia em 2006, e tem feito trabalhos com ela em sala de aula desde 2011, pelo que está em sua página de usuária. Como foi começar a utilizar a enciclopédia no ambiente acadêmico? O que te atraiu para usá-la dessa forma?

Juliana Bastos Marques (JBM): Na verdade, a minha preocupação foi muito simples. Eu já editava antes de me registrar, mas resolvi fazer as coisas direito naquele dia em 2006, quando criei meu primeiro artigo, e logo percebi que era uma tarefa hercúlea consertar e colocar tanto material na Wikipédia – isso só do meu tema, História Antiga. Como era impossível eu dar conta de tanta coisa, pensei – na época, eu ainda não dava aula – “quando eu tiver alunos, vou colocá-los para editar”. Em 2009 fiquei sabendo do primeiro projeto educacional da Wikimedia Foundation através de uma notícia no Inside Higher Education – era a Public Policy Initiative, com nove universidades-piloto americanas. Eu estava ensaiando escrever para esses professores quando descobri que dois funcionários da WMF iriam fazer uma palestra sobre a Wikipédia na UNIRIO, e com esse contato surgiu tudo o que fiz depois.

NM: Quando você começou a desbravar esse campo, qual foi a reação dos seus colegas docentes? Você concordaria que há um “gap” acadêmico na aceitação da Wikipédia?

JBM: Logo percebi que era um bom negócio concordar com os colegas quando diziam que a Wikipédia não era confiável. De fato, há uma grande quantidade de informações sem fontes ou mesmo erradas. Mas basta entender o funcionamento da plataforma e ter em mente que é um projeto de longo prazo. Toda a base da legitimidade da informação na Wikipédia é um bom e sólido conjunto de referências autorais, já que, pela própria natureza da plataforma wiki, não há como legitimar per se a informação oferecida pelos editores. Assim que eu explico essa parte, todos os colegas com quem conversei passaram a ver a Wikipédia com outros olhos.

NM: O uso dela em sala de aula pode ajudar a diminuir o preconceito acadêmico contra a Wikipédia?

JBM: Sem dúvida! Mas isso também passa não só pela compreensão de como buscar a legitimidade da informação na plataforma, como também pelo entendimento por parte do aluno dos princípios que regem o copyright da enciclopédia – ou seja, estamos falando do problema do plágio. Na verdade, é um problema que já existia, mas que aumentou muito graças à facilidade da pesquisa na Wikipédia. O que tenho visto é que a maioria dos alunos não comete plágio por má-fé; eles não sabem o que é plágio e porque é errado! Afinal, muitos nunca tiveram essa discussão na escola, e aprenderam apenas a copiar as coisas, não a produzir ideias próprias.

NM: Quais as maiores vantagens que você percebeu no uso da Wikipédia em sala de aula, tanto do ponto de vista do aprendizado, quanto do desenvolvimento e difusão da ciência? E as dificuldades?

JBM: Os alunos precisam aprender a escrever de maneira clara e objetiva  e explicar conceitos e ideias sem paráfrase, que é um tipo de plágio, e da maneira mais imparcial possível. É um trabalho de formiguinha, mas os resultados mostram que vale a pena. Na busca de referências, os alunos aprendem a fazer buscas mais eficientes no Google Acadêmico e até lembram que existem livros físicos, uma biblioteca para pesquisar…O caráter público das suas edições muitas vezes é um desafio, porque alguns editores revertem as edições – faz parte da regra do jogo, mas o importante é saber argumentar com propriedade para defender as suas edições ou até mesmo ter humildade para aceitar que outros escrevam algo melhor – outro problema da academia. Dá para imaginar que é um trabalho muito minucioso e até desgastante, mas mudou a perspectiva de aprendizado dos alunos. Na verdade, mudou até a minha: eu me acostumei a escrever colaborativamente, a aceitar que eu não sou dona do texto na Wikipédia por causa da minha “autoridade acadêmica” e também a ser mais completa e cuidadosa nas referências que eu uso nos meus trabalhos.

NM: Qual a maior barreira para o avanço da Wikipédia no meio acadêmico? É do ponto de vista técnico, do uso da ferramenta, ou do ponto de vista teórico, a respeito do funcionamento e padrões da mesma?

JBM: Eu sou uma exceção entre os acadêmicos, porque eu já editava e conhecia os meandros do site. Ainda acho que o ideal seria que o professor tivesse essa experiência, mas há muitos editores experientes que ajudam na parte técnica. Fundamental mesmo é entender bem os conceitos dos 5 pilares – como eu coloquei acima, a questão das referências e o caráter público do texto, principalmente, além da questão muitas vezes espinhosa da notoriedade. Agora, ao menos no ensino público, temos todo tipo de dificuldades técnicas extras: falta de internet, wifi intermitente, computador que não funciona, e mesmo as greves, que impedem o acesso a alguns laboratórios. Mesmo com muitos investimentos em tecnologia na educação, às vezes infelizmente voltamos à infraestrutura pré-digital.

NM: Como você analisa a ação e presença da comunidade acadêmica brasileira na Wikipédia lusófona? Como isso afeta, positiva ou negativamente, na visão de ciência que a comunidade de leitores e editores possuem?

JBM: Olha, eu fico tonta com tanta energia que eles têm. Muitas iniciativas, muitas discussões – para o bem ou para o mal – e também muitas lutas internas para fazer prevalecer determinadas ideias. Isso muitas vezes é assustador, para falar a verdade. O fato é que as regras bizantinas da administração de cada Wikipédia são feitas pelos seus próprios editores – fora os 5 pilares, que são princípios básicos norteadores, coisas como eleição de cargos, votações e padronização dos textos devem ser estabelecidas por consenso. E o fato é que nós ainda não dominamos bem essa estrutura horizontal de trabalho; ela não deveria ter hierarquias, mas estas acabam surgindo. Porém, para o professor que trabalha com a Wikipédia em sala de aula, basta compreender que essa situação existe e trabalhar com seus alunos a propriedade das suas edições dentro dos 5 pilares. A imensa maioria dos editores frequentes da Wikipédia em português apoia o projeto e é extremamente atenciosa e dedicada.

NM: Na sua visão, como uma iniciativa como o Ano da Ciência na Wikipédia poderia afetar positivamente, tanto a Wikipédia em português quanto a comunidade científica e na cultura para a ciência no Brasil?

JBM: Eu espero que agora, com essas iniciativas e com a adesão de mais docentes ao projeto, que todos esses aspectos positivos da aprendizagem com a Wikipédia finalmente deslanchem. Sempre pensei no objetivo do meu trabalho como multiplicador de competências ligadas à informação – e isso serve para qualquer área do conhecimento! Os alunos que aprendem a editar na Wikipédia não precisam se tornar editores frequentes, já que é um trabalho voluntário, mas vão transmitir para outras pessoas, especialmente seus próprios futuros alunos, essa compreensão do que a Wikipédia realmente é e no que ela pode se transformar. Nesse sentido, o principal foco de trabalho deverá ser, na minha opinião, com o Ensino Básico, assim que consolidarmos a pesquisa e a metodologia do trabalho pedagógico com a Wikipédia.

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4 comentários em “A Wikipédia muda a perspectiva do aprendizado: uma entrevista com Juliana Bastos Marques”

  1. “Os alunos precisam aprender a escrever de maneira clara e objetiva e explicar conceitos e ideias sem paráfrase, que é um tipo de plágio, e da maneira mais imparcial possível.”

    Não entendi isso bem. Pegar uma informação em um artigo e reescrever com as próprias palavras é uma paráfrase. Mas não pegar a informação no artigo, é pesquisa inédita. Qual é a ideia de solução?

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